Sim, de fato. Eu já li essa critica ao próprio Marxismo, de ter esse caráter de fim da história herdado de Hegel (o que alguns contrapõe dizendo que ele não tem um caráter de fim da história, mas de
começo da história). De certa forma isso vai desembocar na conversa que tivemos algum tempo atrás em outro tópico (eu, você e o
@Shifty♤) sobre o capitalismo ser ou não uma máquina de demolição do conservadorismo, e por isso o conservador-liberal (ou, refinando o que acho hoje, ao menos o tradicionalista-liberal) ser uma contradição em termos.
Mas, enfim... daí é outro papo longo também
É que aí eu vou fazer uma provocação: será que esses regimes autoritários de mercado são realmente contraditórios?
Perceba uma coisa: Se a propriedade do Capital (todo o sistema financeiro, toda a propriedade intelectual, todas as grandes fábricas, toda a infraestrutura) está sob as mãos do Estado chinês e é dirigido pelo Partido (não é nem pelo Estado, é pelo próprio partido) a China é realmente capitalista? Não faz nenhuma diferença se ela tem mais ou menos impostos, mais ou menos processos trabalhistas, mais ou menos regulamentações. Não é isso que vai dizer se ela é capitalista ou não, é a natureza da propriedade.
Para não fazer a comparação com o Brasil, que vai ter características semelhantes (mas é mais pobre), eu vou fazer com a Alemanha. Tenho certeza em absoluto que a Alemanha tem mais impostos, mais direitos trabalhistas e mais regulamentações que a China. Isso quer dizer que na Alemanha, com livre mercado de capitais, um sistema financeiro controlado majoritariamente por bancos privados, com um banco central independente, com propriedade intelectual pertencente às empresas privadas, onde o dirigismo estatal é infinitamente menor que o chinês etc etc etc... você tem MENOS capitalismo que na China? Pô, me parece claro que não.
Acho que questão central é diferenciar o que é Capitalismo e o que é Mercado. Você consegue ter mercado com graus diferentes de capitalismo, porque são os mecanismos de preço que carregam informação, não a natureza da propriedade.
Daí a ilusão da galera achar que a China "virou capitalista" e que "seguiu a cartilha liberal" só porque abraçou o mercado global e tem menos leis trabalhistas que o Brasil, saca? A China é um Capitalismo de Estado (ou Socialismo de Mercado, depende de como você enxerga - hoje estou mais propenso a achar que realmente é um Socialismo de Mercado tal como eles se denominam) que usa o mercado como ferramenta de eficiência alocativa, mas toda a grande propriedade do país e o direcionamento estratégico está nas mãos do Partido. Aliás, só lembrar que quando o Jack Ma deu pitaco ele tomou um chá de sumiço, e pouco depois fatiaram o Alibaba em seis empresas como retaliação. Isso simplesmente não existe no capitalismo ocidental.
Por isso não acho que exista contradição, e por isso Singapura não é uma exceção, e sim a regra do modelo de desenvolvimento do Leste Asiático. Coreia do Sul, o Taiwan, o próprio Vietnã hoje (que vai seguindo os moldes da China dos anos 80/90). Todos eles desenvolveram suas economias mantendo a população sob controle político. Não há contradição se o objetivo for o desenvolvimento nacional. Eles mantém a legitimidade por meio da melhoria das condições econômicas e sociais e reprimem o que ameaça o poder central. Só isso.
Agora, sobre a questão de voltar no tempo, sim, eu fiz isso justamente para demonstrar o ponto principal: se o mundo era monarquista e autoritário exatamente na época em que as nações que hoje são ricas construíram sua base industrial pesada, a democracia não é pré-requisito para enriquecer e dominar a fronteira tecnológica. A democracia aparece depois (de novo, é a ideia do Lipset), mas acho que isso também é dependente da base cultural do país (por isso não apareceu em Singapura, nem na China; e talvez não aparecesse na Coreia e nem em Taiwan se eles não fossem Estados fortemente ligados aos EUA).