Eu estava com 4 ou 5 anos e vivia lendo o dicionário. Era um que tenho aqui até hoje, em 3 livros separados. Meu preferido era o A a J.
Certa noite, meu avô havia convidado uns colegas do trabalho para um jantar comemorando algo que não lembro, mas tinha a ver com cacau.
Durante as conversas, eu me achando capaz de compreender aquele monte de palavras novas, prestava atenção às conversas, tentando ouvir uma palavra que eu tivesse lido no dicionário, mas niguém falava em escolopendras, cálices ou jactância., palavras que eu já havia lido e sabia seu significado.
Eles falavam em cultivares, juros, estruturas e por aí vai. Eu já irritado ia saindo pra uma nova consulta ao livro mágico das palavras, quando ouvi um deles falar uma palavra que eu conhecia: bônus.
Eu parei, apurei os ouvidos para ter certeza de ter ouvido corretamente, e lá veio a palavra de novo, dita agora por outro homem. Eu fiquei extremamente incomodado com isso. "Como esse velho ousado fica dizendo uma palavra dessas assim do nada?".
Conversa vai, conversa vem, era bônus pra lá, bônus pra cá e nenhum dos meus parentes reclamava. Se fosse eu a falar tal palavra, certamente iriam me dar um "carão" e me deixar de castigo.
Num dado momento, já irritado pelo contínuo uso do "palavrão", interrompi a conversa e perguntei se não tinham vergonha de ficar falando palavra feia toda hora.
Eles sem entender o que eu queria dizer, perguntaram que palavra freia era e eu respondi baixinho: "bonus".
Algun riram e continuaram sem entender o que eu estava dizendo e um dos amigos de meu avô que sempre nos visitava, perguntou se eu sabia o que significava a palavra. Eu balancei a cabeça afirmativamente e ele pediu para eu dizer o que eu achava que significava. E eu disse, palavra por palavra, tal qual constava no dicionário: "orifício terminal do tubo digestivo em muitos animais, destinado a expelir os excrementos.". Eles se entreolharam sem entender bem o que eu havia falado e fizeram aquela expressão de quem está perdido e então eu completei baixinho: "é o mesmo que furico, seus bestas".
Daí surgiu uma trovoada de gargalhadas que atraiu a atenção de todos em casa. Comecei a chorar e o cachorro (Peri) que dormia calmamente acordou assustado e começou a latir, avançando em todo mundo e agarrou na mão daquele que mais ria, o velhinho que nos visitava frequentemente. E nem isso bastou para fazê-lo parar de rir.
Eu havia confundido a palavra "bônus" com a palavra "ânus".
Depois disso, passei a ser expulso de conversas entre adultos e mandado pra cama mais cedo nas noites de reunião. Foi minha primeira e mais traumática vergonha.
Sempre que o velhinho aparecia lá em casa para visitar, eu me escondia dele de tanta vergonha. Ele fazia questão de me ver e SEMPRE trazia um doce. Um não, dois. O segundo, ele dizia, era um bônus e ria na minha cara. Não consigo lembrar do nome dele. Era tão complicado de pronunciar... acho que era alemão.