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Introdução
Dragon Ball é uma das grandes obras da minha vida. Conheci primeiro a animação em 1996, quando o SBT comprou um pacote de animes para exibir no Bom Dia & Cia, apresentado pela Eliana. Dois anos antes, Os Cavaleiros do Zodíaco estreavam pela saudosa Manchete através de uma permuta com a fabricante de brinquedos Samtoy. Os heróis nipônicos já haviam invadido as terras brasileiras através de séries protagonizadas por atores japoneses, como Spectreman, Jaspion e Jiraiya (tokusatsus), ou grupos de heróis como Changeman e Flashman (Super Sentai). Animes como Speed Racer e Zillion também já haviam conquistado a criançada brasileira nas décadas de 70 e 80, mas foi somente com Cavaleiros do Zodíaco que o público tupiniquim finalmente começou a entender que a tal animação japonesa era algo bem distinto da enxurrada de cartoons americanos que eram exibidos nos programas infantis.
Recentemente resolvi reler o mangá completo, pois é uma das obras que mais cresceram no meu gosto pessoal com o passar do tempo. À medida que eu aprendia mais sobre a arte da narrativa em quadrinhos (e em outras mídias), ou aumentava minha bagagem cultural ao longo dos anos, a obra foi crescendo em importância para mim, pois fui percebendo com muito mais clareza toda a genialidade de Akira Toriyama em seu ofício. O que não deixa de ter certa ironia, visto que se trata de uma obra claramente despretensiosa. Ainda assim, ela criou, mesclou e popularizou elementos que consolidaram um gênero, além de se tornar referência em todas as mídias conhecidas.
Na resenha abaixo, tentarei buscar as principais inspirações de Toriyama, sejam elas conhecidas ou não, confirmadas pelo autor ou apenas inspirações prováveis a partir do contexto da época. Mais do que uma resenha, tenho como objetivo fazer também uma jornada pelas referências e inspirações para essa obra tão amada e popular. Talvez não exista uma resposta definitiva sobre como foi possível para um garoto de cabelo estranho e com rabo de macaco conquistar o mundo, inspirando uma infinidade de obras e autores até os dias de hoje. Mesmo assim, espero que seja divertido para todos que se aventurarem pelo texto encontrar as pistas que nos mostram como tudo isso foi possível.
Faço um convite especial para o @Irregular Hunter acompanhar o tópico. Foi em intermináveis discussões com ele que aprendi e conheci melhor o trabalho de Toriyama. Claro que inúmeros outros usuários também foram importantes nesse tempo todo de fórum, mas não daria para citar todos. Citarei apenas o Hunter porque foi a nossa contínua divergência que me levou a me aprofundar na história desse clássico.
Recentemente resolvi reler o mangá completo, pois é uma das obras que mais cresceram no meu gosto pessoal com o passar do tempo. À medida que eu aprendia mais sobre a arte da narrativa em quadrinhos (e em outras mídias), ou aumentava minha bagagem cultural ao longo dos anos, a obra foi crescendo em importância para mim, pois fui percebendo com muito mais clareza toda a genialidade de Akira Toriyama em seu ofício. O que não deixa de ter certa ironia, visto que se trata de uma obra claramente despretensiosa. Ainda assim, ela criou, mesclou e popularizou elementos que consolidaram um gênero, além de se tornar referência em todas as mídias conhecidas.
Na resenha abaixo, tentarei buscar as principais inspirações de Toriyama, sejam elas conhecidas ou não, confirmadas pelo autor ou apenas inspirações prováveis a partir do contexto da época. Mais do que uma resenha, tenho como objetivo fazer também uma jornada pelas referências e inspirações para essa obra tão amada e popular. Talvez não exista uma resposta definitiva sobre como foi possível para um garoto de cabelo estranho e com rabo de macaco conquistar o mundo, inspirando uma infinidade de obras e autores até os dias de hoje. Mesmo assim, espero que seja divertido para todos que se aventurarem pelo texto encontrar as pistas que nos mostram como tudo isso foi possível.
Faço um convite especial para o @Irregular Hunter acompanhar o tópico. Foi em intermináveis discussões com ele que aprendi e conheci melhor o trabalho de Toriyama. Claro que inúmeros outros usuários também foram importantes nesse tempo todo de fórum, mas não daria para citar todos. Citarei apenas o Hunter porque foi a nossa contínua divergência que me levou a me aprofundar na história desse clássico.

Vamos Conquistar as Esferas do Dragão! (Como conheci Goku)
Tudo começa com a Sega (@Vaynard pira).
Voltemos a 1987. Zillion (Akai Kōdan Zillion), lançado naquele ano pela Tatsunoko Production e Sega, é um anime de ficção científica clássico de 31 episódios. A trama segue os "White Knights" (JJ, Champ e Apple) no planeta Maris, combatendo alienígenas com pistolas laser poderosas. A série foi criada para divulgar jogos do Master System e teve grande sucesso no Brasil em 1988. No final dos anos 80, Zillion era exibido pela Rede Globo nas manhãs de domingo. Em algum momento, o anime foi parar no Xou da Xuxa. Não sei exatamente em que momento tive o primeiro contato com Zillion, mas foi paixão à primeira vista. Algo naquele desenho era bem diferente dos outros. Nos anos 90, a animação já havia desaparecido da programação, mas estava definitivamente marcada em minha memória afetiva. Um dos elementos mais clássicos era o grupo inimigo combatido pelos heróis: o Império Noza. Cada integrante dessa agressiva raça alienígena usa sempre uma máscara característica.

Nos anos 80, muitas crianças brasileiras conheçaram animes através de Zillion
Vamos avançar agora para 1994. Em alguma tarde entre o final de agosto e o início de setembro daquele ano, vi por acaso um comercial de Cavaleiros do Zodíaco na extinta Manchete. No comercial, o Mestre do Santuário aparecia com sua máscara característica. Foi o suficiente para resgatar na minha memória o visual dos vilões de Zillion e, a partir disso, decidi que precisava assistir àquela animação. Algo que só consegui mesmo a partir do segundo capítulo. Um verdadeiro divisor de águas, os defensores de Atena fizeram o público brasileiro finalmente entender e amar todas as características que definem um shonen.

O segredo estava na máscara
O fenômeno estrondoso dos defensores de Athena inspirou Silvio Santos a tentar embarcar nesse sucesso. A estratégia foi focar em títulos que já tinham algum sucesso internacional ou que apelavam para o público infantojuvenil dos programas Bom Dia & Cia e Sábado Animado (quase todas as animações inspiradas em jogos eletrônicos, tal como aconteceu com Zillion na década anterior). Assim, em 1996, a emissora montou um verdadeiro "pacote" de animações japonesas para tentar bater de frente com a audiência da Rede Manchete. De uma única vez, foi possível assistir a Fly, o Pequeno Guerreiro (adaptação de Dragon Quest, o mais clássico jogo de RPG japonês), Guerreiras Mágicas de Rayearth (que buscava o público de Sailor Moon), Mega Man (coprodução entre EUA e Japão), Street Fighter II Victory (dispensa apresentações) e nosso querido Dragon Ball. As aventuras de Goku eram embaladas por duas inesquecíveis trilhas sonoras: a abertura com "Esferas do Dragão" (Makafushigi Adventure) e o encerramento "Com você eu vou ficar" (Romantic Ageru Yo). Ambas foram escritas e cantadas em suas versões brasileiras pelo já saudoso Anísio Mello Júnior.
"Vamos lá buscar, as esferas do Dragão"
Esse encerramento me traz uma nostalgia deliciosa
Lembro que era um verdadeiro deleite para mim e meus irmãos poder assistir a tantas boas animações. Nessa altura do campeonato, todo mundo já sabia o que era um anime e como esse tipo de obra entregava "experiências superiores" para o jovem público brasileiro. Animações com padrão de qualidade bem acima dos concorrentes norte americanos , histórias que evoluíam muito além do que era possível ver nos cartoons tradicionais, violência e morte caracterizadas de maneira a causar um verdadeiro alvoroço entre crianças e jovens desacostumados com esses temas em seus desenhos favoritos. Mas havia algo ainda mais diferente em Dragon Ball. Aquela história parecia muito distinta do que eu já havia visto em Cavaleiros do Zodíaco. Era uma grande aventura cheia de humor que parecia seguir uma direção bem diversa daquilo que eu viria a entender como shonen. O SBT jamais exibiu mais de sessenta episódios dessa primeira fase, mas o episódio final, com Goku escalando pela primeira vez a Torre de Karin após perder para o assassino Tao Pai Pai, deixava o público ansioso para ver a continuação que, infelizmente, só seria exibida anos depois pela Rede Globo. Antes disso, Dragon Ball Z estrearia pela Bandeirantes em um momento avançado da história. De maneira que o público brasileiro não fazia a menor ideia, Goku reaparecia adulto, casado e com um filho. Um salto gigante na narrativa e uma evolução totalmente inesperada para o público brasileiro, tão acostumado com histórias em que os personagens jamais evoluíam tanto assim em suas vidas.

Capa da primeira edição brasileira
O mangá de Dragon Ball só chegaria ao Brasil no início do século XXI, junto com Cavaleiros do Zodíaco. Para ser mais exato, ambos foram publicados a partir de novembro de 2000 pela editora Conrad. Era a primeira vez que o público brasileiro tinha acesso a um mangá em um formato semelhante à publicação japonesa, com leitura oriental (da direita para a esquerda). A publicação foi outro sucesso estrondoso que consolidaria de vez a invasão nipônica no país. O mangá teve sua primeira publicação completa encerrada em 2003 e confesso que, de lá para cá, nunca reli a obra por inteiro, apesar de passar mais de uma década discutindo os pormenores das histórias no fórum e relendo trechos específicos. Resolvi reler tudo desde o início agora que passei dos quarenta anos, pois, durante todo esse tempo em que a obra permaneceu viva em minha memória, fui aprendendo a admirar cada vez mais o gigantesco talento de Toriyama ao contar essa história de apelo universal e que marcou de maneira impressionante a cultura pop mundial. Apesar de despretensiosa, divertida e bem-humorada, a obra de Toriyama é um expoente da genialidade narrativa do autor, uma inspiração onipresente em todas as mídias possíveis e além delas. As histórias de Goku e seus amigos são, seguramente, lendas vivas de uma mitologia moderna, e com certeza existe uma razão para tamanho êxito.
Hora de tentar descobrir.
Voltemos a 1987. Zillion (Akai Kōdan Zillion), lançado naquele ano pela Tatsunoko Production e Sega, é um anime de ficção científica clássico de 31 episódios. A trama segue os "White Knights" (JJ, Champ e Apple) no planeta Maris, combatendo alienígenas com pistolas laser poderosas. A série foi criada para divulgar jogos do Master System e teve grande sucesso no Brasil em 1988. No final dos anos 80, Zillion era exibido pela Rede Globo nas manhãs de domingo. Em algum momento, o anime foi parar no Xou da Xuxa. Não sei exatamente em que momento tive o primeiro contato com Zillion, mas foi paixão à primeira vista. Algo naquele desenho era bem diferente dos outros. Nos anos 90, a animação já havia desaparecido da programação, mas estava definitivamente marcada em minha memória afetiva. Um dos elementos mais clássicos era o grupo inimigo combatido pelos heróis: o Império Noza. Cada integrante dessa agressiva raça alienígena usa sempre uma máscara característica.

Nos anos 80, muitas crianças brasileiras conheçaram animes através de Zillion
Vamos avançar agora para 1994. Em alguma tarde entre o final de agosto e o início de setembro daquele ano, vi por acaso um comercial de Cavaleiros do Zodíaco na extinta Manchete. No comercial, o Mestre do Santuário aparecia com sua máscara característica. Foi o suficiente para resgatar na minha memória o visual dos vilões de Zillion e, a partir disso, decidi que precisava assistir àquela animação. Algo que só consegui mesmo a partir do segundo capítulo. Um verdadeiro divisor de águas, os defensores de Atena fizeram o público brasileiro finalmente entender e amar todas as características que definem um shonen.

O segredo estava na máscara
O fenômeno estrondoso dos defensores de Athena inspirou Silvio Santos a tentar embarcar nesse sucesso. A estratégia foi focar em títulos que já tinham algum sucesso internacional ou que apelavam para o público infantojuvenil dos programas Bom Dia & Cia e Sábado Animado (quase todas as animações inspiradas em jogos eletrônicos, tal como aconteceu com Zillion na década anterior). Assim, em 1996, a emissora montou um verdadeiro "pacote" de animações japonesas para tentar bater de frente com a audiência da Rede Manchete. De uma única vez, foi possível assistir a Fly, o Pequeno Guerreiro (adaptação de Dragon Quest, o mais clássico jogo de RPG japonês), Guerreiras Mágicas de Rayearth (que buscava o público de Sailor Moon), Mega Man (coprodução entre EUA e Japão), Street Fighter II Victory (dispensa apresentações) e nosso querido Dragon Ball. As aventuras de Goku eram embaladas por duas inesquecíveis trilhas sonoras: a abertura com "Esferas do Dragão" (Makafushigi Adventure) e o encerramento "Com você eu vou ficar" (Romantic Ageru Yo). Ambas foram escritas e cantadas em suas versões brasileiras pelo já saudoso Anísio Mello Júnior.
"Vamos lá buscar, as esferas do Dragão"
Esse encerramento me traz uma nostalgia deliciosa
Lembro que era um verdadeiro deleite para mim e meus irmãos poder assistir a tantas boas animações. Nessa altura do campeonato, todo mundo já sabia o que era um anime e como esse tipo de obra entregava "experiências superiores" para o jovem público brasileiro. Animações com padrão de qualidade bem acima dos concorrentes norte americanos , histórias que evoluíam muito além do que era possível ver nos cartoons tradicionais, violência e morte caracterizadas de maneira a causar um verdadeiro alvoroço entre crianças e jovens desacostumados com esses temas em seus desenhos favoritos. Mas havia algo ainda mais diferente em Dragon Ball. Aquela história parecia muito distinta do que eu já havia visto em Cavaleiros do Zodíaco. Era uma grande aventura cheia de humor que parecia seguir uma direção bem diversa daquilo que eu viria a entender como shonen. O SBT jamais exibiu mais de sessenta episódios dessa primeira fase, mas o episódio final, com Goku escalando pela primeira vez a Torre de Karin após perder para o assassino Tao Pai Pai, deixava o público ansioso para ver a continuação que, infelizmente, só seria exibida anos depois pela Rede Globo. Antes disso, Dragon Ball Z estrearia pela Bandeirantes em um momento avançado da história. De maneira que o público brasileiro não fazia a menor ideia, Goku reaparecia adulto, casado e com um filho. Um salto gigante na narrativa e uma evolução totalmente inesperada para o público brasileiro, tão acostumado com histórias em que os personagens jamais evoluíam tanto assim em suas vidas.

Capa da primeira edição brasileira
O mangá de Dragon Ball só chegaria ao Brasil no início do século XXI, junto com Cavaleiros do Zodíaco. Para ser mais exato, ambos foram publicados a partir de novembro de 2000 pela editora Conrad. Era a primeira vez que o público brasileiro tinha acesso a um mangá em um formato semelhante à publicação japonesa, com leitura oriental (da direita para a esquerda). A publicação foi outro sucesso estrondoso que consolidaria de vez a invasão nipônica no país. O mangá teve sua primeira publicação completa encerrada em 2003 e confesso que, de lá para cá, nunca reli a obra por inteiro, apesar de passar mais de uma década discutindo os pormenores das histórias no fórum e relendo trechos específicos. Resolvi reler tudo desde o início agora que passei dos quarenta anos, pois, durante todo esse tempo em que a obra permaneceu viva em minha memória, fui aprendendo a admirar cada vez mais o gigantesco talento de Toriyama ao contar essa história de apelo universal e que marcou de maneira impressionante a cultura pop mundial. Apesar de despretensiosa, divertida e bem-humorada, a obra de Toriyama é um expoente da genialidade narrativa do autor, uma inspiração onipresente em todas as mídias possíveis e além delas. As histórias de Goku e seus amigos são, seguramente, lendas vivas de uma mitologia moderna, e com certeza existe uma razão para tamanho êxito.
Hora de tentar descobrir.

Dragon Ball: Dados da Publicação
Autor: Akira Toriyama
Publicação original: Weekly Shōnen Jump (Shueisha)
Período total do mangá: 1984 – 1995
O mangá Dragon Ball foi publicado semanalmente na revista japonesa Weekly Shōnen Jump. No mangá original não existe a divisão “Dragon Ball” e “Dragon Ball Z”. Essa separação ocorreu apenas no anime produzido pela Toei Animation.
A parte conhecida como Dragon Ball clássico corresponde aos capítulos 1 a 194, antes da chegada dos Saiyajins. Nosso foco inicial será na fase clássica, pois já finalizei a leitura.

1. Saga Imperador Pilaf
Capítulos: 1–23Volumes: 1–2
Publicação: dezembro de 1984 – maio de 1985
Resumo:
A história começa com o encontro entre Son Goku e Bulma. Bulma está em busca das sete Dragon Balls, artefatos que invocam o dragão Shenlong para conceder um desejo. Durante a jornada surgem aliados como Yamcha, Oolong e Pual. O principal antagonista é o Imperador Pilaf, que tenta usar as esferas para dominar o mundo.
Resenha:
Essa primeira fase, baseada principalmente em humor e aventura, tem uma introdução que dá poucas pistas sobre aquilo que Dragon Ball iria se tornar. Ainda hoje me surpreendo com a quantidade de piadas de cunho sexual (ainda mais quando se pensa na idade da Bulma). Yamcha, Pual, Oolong, Bulma e Goku formam um grupo divertido e com excelente dinâmica. Aqui, nessa fase, Yamcha já se torna meu personagem favorito da história (sim, não é zoeira). Isso ocorre, em um primeiro momento, pela semelhança visual com Shiryu de Cavaleiros do Zodíaco (meu cavaleiro de bronze favorito), mas, além disso, eu achava os momentos dele com Bulma absolutamente hilários. Aliás, é triste pensar no quanto Yamcha e Bulma deixam de ser importantes com o passar do tempo (principalmente o Yamcha). Também chamam a atenção as piadas metalinguísticas de Toriyama, claramente uma herança de seu tempo escrevendo Dr. Slump.
Necessário dizer algo que a maioria das pessoas já sabe: Dragon Ball se inspira inicialmente na famosa história de Journey to the West que acompanha a peregrinação do monge budista Tang Sanzang, que parte da China rumo à Índia para buscar escrituras sagradas do budismo. Durante a jornada ele é protegido por discípulos sobrenaturais, principalmente o poderoso Sun Wukong, o Rei Macaco, um guerreiro travesso com força extraordinária, bastão mágico e poderes de transformação. Ao longo do caminho, o grupo enfrenta demônios, espíritos e diversos obstáculos enquanto aprende lições espirituais e morais. A narrativa mistura aventura, fantasia, humor e batalhas, elementos que inspiraram diretamente o início de Dragon Ball, especialmente na ideia de uma jornada com companheiros em busca de objetos sagrados e com um protagonista inspirado no Rei Macaco.

Personagens da Jornada ao Oeste. Yamcha foi inspirado em Sha Wujing, Oolong em Zhu Bajie, Goku em Sun Wukong e Bulma em Tripitaka (Tang Sanzang).
A Jornada ao Oeste, é uma obra de enorme importância na cultura da Ásia Oriental. Mistura de maneira harmônica Budismo, Taoísmo e Confucionismo enquanto critica e ironiza a burocracia excessiva e a corrupção do governo chinês da época de sua publicação. O personagem principal da história, e que inspirou Bulma, é baseado em um monge erudito real chamado Xuanzang que viajou sozinho da China para a Índia no século VII. Ele levou 17 anos para ir e voltar, enfrentando desertos e montanhas reais (sem demônios ou porcos falantes) para trazer textos budistas originais para a China. Ele é um dos maiores tradutores da história asiática.
Curiosidade: Recentemente a obra foi adaptada pelo jogo eletrônico Black Myth: Wukong. Um RPG que acabou ultrapassando 25 milhões de cópias vendidas mundialmente.
Nuvem Voadora e Bastão Mágico são elementos usados por Sun Wukong e entregues por Toriyama nas mãos de Son Goku. Mas as coisas não param por aí. Zhu Bajie, um porco, é um ex-comandante celestial expulso por assediar a Deusa da Lua. É guloso, preguiçoso e luxurioso. Representa os desejos carnais e as fraquezas humanas. Daí temos Oolong sequestrando meninas até ser derrotado por Goku. Zhu Bajie era um general celestial caído em desgraça por ter quebrado um valioso artefato durante o festival do pêssego celestial. Ele é então punido pelo Imperador de Jade e reencarna como um terrível monstro devorador de homens que vivia em um rio de areia movediça (daí a inspiração para Yamcha, o bandido do deserto).
Além disso, o Rei Macaco tem um grande embate com os personagens Rei Touro e a Princesa Leque de Ferro. O grupo havia chegado nas montanhas de fogo, onde o calor é insuportável, e a única forma de de apagar o fogo é usando o leque de ferro, um tesouro da Princesa Leque de Ferro. Duas inspirações diretas para o Rei Cutelo (Ox-King) e sua filha Chi-Chi (que no início de Dragon Ball também usa um leque para tentar apagar o fogo em sua montanha).

Rei Touro e Princesa Leque de Ferro
Outra inpiração foi o romance clássico japonês "Nansō Satomi Hakkenden" (As Crônicas dos Oito Cães). Escrito por Kyokutei Bakin entre 1814 e 1842 (levou 28 anos para ser concluído!), é o romance mais longo da era Edo. São 106 volumes de uma história densa que mistura budismo, confucionismo e folclore.
A Trama: A história foca em oito guerreiros samurais (os "Cães Guerreiros") que nasceram de uma maldição/bênção espiritual. Cada um deles possui uma esfera de cristal (conta de oração) que apareceu magicamente no seu nascimento, gravada com um dos oito ideogramas das virtudes confucionistas (Benevolência, Justiça, Cortesia, Sabedoria, Lealdade, Fé, Fraternidade e Piedade Filial). Juntamente com Ugetsu Monogatari , de Ueda Akinari , é considerado uma obra-prima da literatura gesaku e um dos clássicos da ficção histórica japonesa
Toriyama usou este épico do período Edo (escrito por Kyokutei Bakin) como inspiração para o conceito das esferas, mas escolheu 7 ao invés de 8.
Satomi Jirotarō Yoshinari é a figura histórica e lendária que serve de "pilar" para o início de toda a saga.
Seguindo uma análise sobre o sucesso inicial da história de Goku, daqui em diante vou usar trechos de uma excelente matéria publicada pelo site https://namekusei.wordpress.com/. Lá eles exploram todas as informações sobre os boatos e rumores sobre Toriyama ter tentando finalizar Dragon Ball antes da fase de Majin Boo. Trarei pra cá só o que é interessante ao contexto do sucesso original da obra, mas deixo aqui o link para todos lerem a matéria completa: https://namekusei.wordpress.com/2011/11/08/quando-toriyama-quis-encerrar-dragon-ball/
-----------
Toriyama originalmente planejou que a série não passasse da sua primeira saga, a da primeira busca pelas esferas do dragão. Ele observa isso em sua entrevista publicada no Daizenshuu 2, discutindo as raízes de Dragon Ball em Jornada para o Oeste:
No Shenlong Times #2 , na mesa redonda com os três editores que trabalharam na série Dragon Ball, Toriyama também mencionou que seus planos iniciais para Dragon Ball iam muito adiante:
Em seu comentário para o capítulo 249, que apareceu na 49ª edição da Weekly Shounen Jump de 1989 (que mais tarde publicada no Daizenshuu 7), Toriyama também observou:
Nem precisamos dizer que esse plano de encerrar a série após um ano não deu certo. O que fez Toriyama continuar a série após esse ponto? Foi a enorme popularidade de Dragon Ball? Na verdade, não! Difícil de acreditar, mas Dragon Ball em seu comecinho não era tão popular assim. Toriyama explica em sua entrevista no Daizenshuu 2 que a série não pegou muita popularidade até chegar no enredo do 21º Tenkaichi Budokai:
Talvez, como referência dos seus planos originais para o fim da série após a busca das esferas do dragão, no fim dessa saga Toriyama (através do narrador) brinca que esse era o fim. Ele começa agradecendo todos pela leitura, e então corta e diz que ainda teria história, mesmo com Goku se separando de seus amigos para ir treinar com Mestre Kame. Pobre Toriyama que na época não fazia a menor idéia do quanto a série ainda ia se estender…
------
Isso nos leva a próxima saga da história.
Necessário dizer algo que a maioria das pessoas já sabe: Dragon Ball se inspira inicialmente na famosa história de Journey to the West que acompanha a peregrinação do monge budista Tang Sanzang, que parte da China rumo à Índia para buscar escrituras sagradas do budismo. Durante a jornada ele é protegido por discípulos sobrenaturais, principalmente o poderoso Sun Wukong, o Rei Macaco, um guerreiro travesso com força extraordinária, bastão mágico e poderes de transformação. Ao longo do caminho, o grupo enfrenta demônios, espíritos e diversos obstáculos enquanto aprende lições espirituais e morais. A narrativa mistura aventura, fantasia, humor e batalhas, elementos que inspiraram diretamente o início de Dragon Ball, especialmente na ideia de uma jornada com companheiros em busca de objetos sagrados e com um protagonista inspirado no Rei Macaco.

Personagens da Jornada ao Oeste. Yamcha foi inspirado em Sha Wujing, Oolong em Zhu Bajie, Goku em Sun Wukong e Bulma em Tripitaka (Tang Sanzang).
A Jornada ao Oeste, é uma obra de enorme importância na cultura da Ásia Oriental. Mistura de maneira harmônica Budismo, Taoísmo e Confucionismo enquanto critica e ironiza a burocracia excessiva e a corrupção do governo chinês da época de sua publicação. O personagem principal da história, e que inspirou Bulma, é baseado em um monge erudito real chamado Xuanzang que viajou sozinho da China para a Índia no século VII. Ele levou 17 anos para ir e voltar, enfrentando desertos e montanhas reais (sem demônios ou porcos falantes) para trazer textos budistas originais para a China. Ele é um dos maiores tradutores da história asiática.
Curiosidade: Recentemente a obra foi adaptada pelo jogo eletrônico Black Myth: Wukong. Um RPG que acabou ultrapassando 25 milhões de cópias vendidas mundialmente.
Nuvem Voadora e Bastão Mágico são elementos usados por Sun Wukong e entregues por Toriyama nas mãos de Son Goku. Mas as coisas não param por aí. Zhu Bajie, um porco, é um ex-comandante celestial expulso por assediar a Deusa da Lua. É guloso, preguiçoso e luxurioso. Representa os desejos carnais e as fraquezas humanas. Daí temos Oolong sequestrando meninas até ser derrotado por Goku. Zhu Bajie era um general celestial caído em desgraça por ter quebrado um valioso artefato durante o festival do pêssego celestial. Ele é então punido pelo Imperador de Jade e reencarna como um terrível monstro devorador de homens que vivia em um rio de areia movediça (daí a inspiração para Yamcha, o bandido do deserto).
Além disso, o Rei Macaco tem um grande embate com os personagens Rei Touro e a Princesa Leque de Ferro. O grupo havia chegado nas montanhas de fogo, onde o calor é insuportável, e a única forma de de apagar o fogo é usando o leque de ferro, um tesouro da Princesa Leque de Ferro. Duas inspirações diretas para o Rei Cutelo (Ox-King) e sua filha Chi-Chi (que no início de Dragon Ball também usa um leque para tentar apagar o fogo em sua montanha).

Rei Touro e Princesa Leque de Ferro
Outra inpiração foi o romance clássico japonês "Nansō Satomi Hakkenden" (As Crônicas dos Oito Cães). Escrito por Kyokutei Bakin entre 1814 e 1842 (levou 28 anos para ser concluído!), é o romance mais longo da era Edo. São 106 volumes de uma história densa que mistura budismo, confucionismo e folclore.
A Trama: A história foca em oito guerreiros samurais (os "Cães Guerreiros") que nasceram de uma maldição/bênção espiritual. Cada um deles possui uma esfera de cristal (conta de oração) que apareceu magicamente no seu nascimento, gravada com um dos oito ideogramas das virtudes confucionistas (Benevolência, Justiça, Cortesia, Sabedoria, Lealdade, Fé, Fraternidade e Piedade Filial). Juntamente com Ugetsu Monogatari , de Ueda Akinari , é considerado uma obra-prima da literatura gesaku e um dos clássicos da ficção histórica japonesa
Toriyama usou este épico do período Edo (escrito por Kyokutei Bakin) como inspiração para o conceito das esferas, mas escolheu 7 ao invés de 8.
Satomi Jirotarō Yoshinari é a figura histórica e lendária que serve de "pilar" para o início de toda a saga.
Seguindo uma análise sobre o sucesso inicial da história de Goku, daqui em diante vou usar trechos de uma excelente matéria publicada pelo site https://namekusei.wordpress.com/. Lá eles exploram todas as informações sobre os boatos e rumores sobre Toriyama ter tentando finalizar Dragon Ball antes da fase de Majin Boo. Trarei pra cá só o que é interessante ao contexto do sucesso original da obra, mas deixo aqui o link para todos lerem a matéria completa: https://namekusei.wordpress.com/2011/11/08/quando-toriyama-quis-encerrar-dragon-ball/
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Toriyama originalmente planejou que a série não passasse da sua primeira saga, a da primeira busca pelas esferas do dragão. Ele observa isso em sua entrevista publicada no Daizenshuu 2, discutindo as raízes de Dragon Ball em Jornada para o Oeste:
Bulma era Tripitaka, Oolong era Zhu Bajie e Yamcha era Sha Wujing. Inicialmente eu pensei que a terminaria após coletarem as esferas do dragão.
No Shenlong Times #2 , na mesa redonda com os três editores que trabalharam na série Dragon Ball, Toriyama também mencionou que seus planos iniciais para Dragon Ball iam muito adiante:
Fuyuto Takeda: E então a série começou, mas no começo, quanto de história você já tinha planejado?
Toriyama: Eu não tinha pensado sobre isso. Eu imaginei que provavelmente terminaria em cerca de um ano, e eu tinha o storyboard de apenas três capítulos prontos.
Em seu comentário para o capítulo 249, que apareceu na 49ª edição da Weekly Shounen Jump de 1989 (que mais tarde publicada no Daizenshuu 7), Toriyama também observou:
“Cerca de um ano” significa aproximadamente 50 capítulos, que seria mais ou menos no fim do 21º Tenkaichi Budoukai. Seria, entretanto, incorreto afirmar que Toriyama havia originalmente planejado o fim da série após o 21º Tenkaichi Budoukai, por ele mesmo ter dito que não tinha planejado tanto a história, quanto mais o seu encerramento logo no início do seu trabalho. Certamente ele teria tido conhecimento que Dragon Ball continuaria além do ‘cerca de um ano’ que ele imaginava inicialmente, bem antes de ter desenvolvido a idéia do 21º Tenkaichi Budoukai.Dragon Ball, que eu planejei que durasse cerca de um ano quando comecei, agora dura há tanto tempo que superou Dr. Slump! Sinto-me simultaneamente feliz e assustado…
Nem precisamos dizer que esse plano de encerrar a série após um ano não deu certo. O que fez Toriyama continuar a série após esse ponto? Foi a enorme popularidade de Dragon Ball? Na verdade, não! Difícil de acreditar, mas Dragon Ball em seu comecinho não era tão popular assim. Toriyama explica em sua entrevista no Daizenshuu 2 que a série não pegou muita popularidade até chegar no enredo do 21º Tenkaichi Budokai:
Também há um rumor de que Toriyama continuou a série depois do fim da procura das esferas do dragão simplesmente porque um amigo tinha feito uma aposta com ele. Como vimos, é um fato que Toriyama, em suas primeiras idéias, iria terminar a série após o fim da primeira aventura em torno das esferas, mas é um mistério o motivo que o fez continuar sua história, quando seus planos iniciais não estavam dando tanta popularidade, e como vimos, a série não duraria até o fim da primeira saga da procura das esferas, mas duraria cerca de um ano. A primeira saga de DB acabou em quase seis meses, então talvez Toriyama decidiu que iria continuar até completar o seu um ano que tinha planejado. Quando o ano terminou, a história do 21º Tenkaichi Budoukai já conquistara uma grande popularidade justificando uma continuação além dos planos originais de Toriyama-sensei.Até o Tenkaichi Budokai começar a série ainda não era tão popular. Na época, Torishima-san me disse “seu protagonista é muito simples. É por isso que não é popular”. Como estava fazendo uma história de luta para essa série, intencionalmente fiz a roupa do protagonista excessivamente simples. Isso me incomodou, mas depois tive uma idéia. “Bem, então vamos aumentar sua popularidade”, pensei. Quando eu tinha feito o personagem de Goku, as palavras que melhor o caracterizavam eram “Eu quero me tornar forte”. Então eu pensei em focar nisso. Mesmo em “Dr. Slump”, mini-eventos, torneios e coisas do tipo como Gran Prix da Vila Pinguim foram incrivelmente populares. Então eu simplesmente faria a história no formato de um torneio. Daí nasceu o Tenkaichi Budoukai. Temporariamente, retirei outros personagens além de Goku, trouxe de volta Kame-sennin e acrescentei Kulilin como novo personagem. De lá, a série ficou popular antes que eu percebesse.
Talvez, como referência dos seus planos originais para o fim da série após a busca das esferas do dragão, no fim dessa saga Toriyama (através do narrador) brinca que esse era o fim. Ele começa agradecendo todos pela leitura, e então corta e diz que ainda teria história, mesmo com Goku se separando de seus amigos para ir treinar com Mestre Kame. Pobre Toriyama que na época não fazia a menor idéia do quanto a série ainda ia se estender…
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Isso nos leva a próxima saga da história.
2. Saga do 21º Torneio de Artes Marciais
Capítulos: 24–54Volumes: 3–5
Publicação: maio de 1985 – dezembro de 1985
Resumo:
Goku inicia treinamento com o Mestre Kame (Master Roshi), ao lado de Krillin. Após meses de treinamento intenso, eles participam do Torneio Mundial de Artes Marciais. Na final do torneio, Goku enfrenta Jackie Chun, que na verdade é o próprio Mestre Kame disfarçado.
Resenha:
Para entender os rumos de Dragon Ball em sua nova saga, é necessário entender o tamanho do sucesso da obra anterior de Akira Toriyama: Dr. Slump. Antes de Dragon Ball, a história da androide Arale já havia deixado seu autor como um dos homens mais ricos do Japão. Foi com Dr. Slump que o editor Kazuhiko Torishima, editor original de Toriyama, aperfeiçoou a estratégia de lançar o anime quase simultaneamente ao mangá. Isso criou um ciclo de vendas onde um produto alimentava o outro (merchandising, revistas e TV), algo que se tornou o padrão para Dragon Ball e todos os sucessos futuros da Shonen Jump ou de qualquer outra revista.
O anime, que estreou em 1981, detém até hoje uma das maiores audiências da história na TV. Arale havia se tornado até mesmo um ícone fashion, inspirando uma moda com “óculos Arale” e ajudando a criar o universo do cosplay no Japão. Mesmo sendo um Shonen, Dr. Slump trouxe uma protagonista feminina forte, engraçada e "estilosa". Isso atraiu um público feminino massivo para as convenções de mangá, e a Arale tornou-se o cosplay número um entre as mulheres naquela década.
Arale deixou Toriyama rico muito antes de Goku existir
Em entrevista de Toriyama publicada na Daizenshuu 2, segundo volume do guia enciclopédico oficial sobre a série, o autor revela que Dragon Ball, em sua publicação até o fim da saga de Pilaf, não estava à altura da popularidade do seu sucesso anterior com o público japonês. Segundo o editor de Toriyama, o problema estava na simplicidade de Goku. A partir disso, o mangaká decide dar a Goku uma jornada para o tornar mais forte; o primeiro passo para isso é apostar em uma fórmula consagrada em filmes de kung fu que Toriyama adorava, e isso iria definir todo o gênero shonen.
Nesse contexto, o mangá Fist of the North Star (Hokuto no Ken) fazia sucesso na Shonen Jump e, de alguma maneira, também deve ter influenciado Toriyama (ou mesmo o seu editor). O protagonista dessa história é Kenshiro, sucessor de uma arte marcial secreta chamada Hokuto Shinken. Esse herói representa o modelo do guerreiro solitário que restaura a justiça em um mundo brutal, enquanto desafia e derrota inimigos cada vez mais fortes. Nem Dr. Slump nem o primeiro arco de Dragon Ball seguiram esse tipo de fórmula, mas Toriyama iria integrá-la ao seu novo universo ficcional.
O punho que deu um norte para Dragon Ball?
Nessa nova etapa da sua jornada, Goku resolve ir atrás do Mestre Kame para ser treinado. O "velho safado" já havia deixado claro que tinha interesse em treinar o pequeno prodígio com rabo de macaco. Toriyama aproveita para inserir na história o simpático e carismático Kuririn. O novo personagem é uma inspiração direta nos monges Shaolin, que se tornaram onipresentes no imaginário moderno do século XX. Kuririn apresenta na testa as cicatrizes de queimadura usadas por monges budistas chineses. Essas marcas são chamadas de jieba e são feitas em cerimônias de ordenação como símbolo de devoção, disciplina e cumprimento de preceitos. Suas vestes amarelas são típicas dos monges budistas da vida real, e sua origem, o Templo Orin, é uma referência direta ao famoso Templo Shaolin, na China.
Os monges Shaolin ficaram famosos por participarem de conflitos reais, especialmente durante a dinastia Tang. A partir disso, tornaram-se populares primeiro pela literatura popular chinesa (Jornada ao Oeste é um dos melhores exemplos) e pelos filmes do gênero wuxia, onde heróis justiceiros com grandes poderes, originados do domínio absoluto das artes marciais, combatiam o mal enquanto trilhavam jornadas de aperfeiçoamento pessoal e moral. Parece familiar? Pois é... Todo shonen bebeu nessa fonte, seja pelos filmes ou pelo próprio Dragon Ball. Mas esse é um ponto ao qual ainda iremos voltar.
Mestre Kame merece também uma rápida análise. Talvez hoje seja bem comum pensarmos em velhos mestres cômicos e/ou assanhados, mas certamente Muten Roshi (se traduz como mestre ancião invencível), é a grande referência para as histórias que vieram depois. Beggar So, do filme O Mestre Bêbado (Drunken Master, 1978), parece ter sido uma das principais inspirações para Kame. No filme, ele é uma figura excêntrica e alcoólatra que submete o personagem de Jackie Chan a treinamentos estranhos, como carregar jarras pesadas ou quebrar nozes com os dedos, com o objetivo de dominar a técnica do “punho bêbado”. Não por acaso, Mestre Kame vai usar a mesma técnica durante o torneio.
Cartaz de Drunken Master. Beggar So treinando o personagem de Jackie Chan
Assim, a partir dos elementos descritos, a dinâmica entre Mestre Kame, Goku e Kuririn se torna o núcleo de situações hilárias (boa parte politicamente incorretas, não vamos deixar de registar), que vão da tara do velhote por jovens mulheres aos treinamentos absurdos pelos quais Goku e Kuririn precisam passar (nenhum melhor e mais marcante do que os dois amarrados em uma árvore enquanto precisam aprender a se desviar de abelhas furiosas, momento absolutamente hilário). Nasce também uma rivalidade divertida entre o malicioso Kuririn e o ingênuo Goku.
O clímax de toda essa etapa é o primeiro torneio de artes marciais. Nessa época, campeonatos desse estilo eram comuns em mangás de esporte como Ring ni Kakero (publicado entre 1977 e 1981) e Ashita no Joe (publicado entre 1968 e 1973), ambos sobre boxe, e Karate Baka Ichidai (de 1971 a 1977), obviamente uma história sobre karatê. Mesmo assim, essas disputas estavam longe de ser um clichê essencial no gênero shonen. Então, relembrando da popularidade desse tipo de competição em Dr. Slump e se valendo de elementos típicos de torneios desse estilo nos filmes wuxia, Toriyama nos entrega o ápice dessa nova fase.
Buscando no cinema as principais referências dessa ideia, começamos com Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973), estrelado por Bruce Lee — um mestre Shaolin competindo em um torneio de artes marciais em uma ilha — e O Mestre da Guilhotina Voadora (Master of the Flying Guillotine, 1976). Em ambos os filmes, lutadores de diferentes partes do mundo e com diferentes estilos se enfrentam. Com um torneio nesse mesmo modelo, Jackie Chan protagonizaria A Fúria do Protetor (The Big Brawl, 1980). É quase desnecessário dizer que o pseudônimo Jackie Chun, usado pelo Mestre Kame, é diretamente inspirado no ator. Em entrevistas, o mangaká sempre deixou clara sua grande inspiração nos filmes de Jackie Chan, pois traziam essa pitada de humor com artes marciais que se tornou a marca desse início das aventuras de Goku. Curiosamente, o nome Dragon Ball se inspira principalmente no já citado Operação Dragão, de Bruce Lee. A explicação para isso, segundo ele, é que qualquer filme de kung fu precisava usar “Dragão” em seu nome (sendo Operação Dragão o primeiro a inspirar todos os outros). Logo, se ele pretendia que o seu mangá fosse uma aventura com lutadores de kung fu, também precisava carregar “Dragão” em seu título.
No Brasil, Operação Dragão era um clássico do SBT
Também interessante notar que treinamentos que precedem os torneios fazem parte da fórmula desses filmes, mas nenhum deles possui um treinamento tão pouco convencional quanto Karatê Kid de 1984, onde o Sr. Miyagi, mestre de Daniel San, protagonista do filme, treina seu discípulo com tarefas domésticas que no fim se revelam grandes segredos para aprimorar as habilidades de luta do seu jovem aprendiz antes do torneio final do filme. Extremamente provável que Karatê Kid também se inspira em Drunken Master. Mas... os treinamentos de Goku e Kuririn podem também ter se inspirado em Karatê Kid? Apesar do filme ser de 84, ele só chega no Japão em fevereiro de 1985. Em tempo de inspirar Toriyama? Sim. Realmente inspirou? Difícil saber. Mas é no mínimo é curioso ter duas obras de sucesso seguindo essa fórmula de treinamento no ano de 85 no Japão.
Uma criança que nunca usou o Karatê aprendido com o Sr. Miyagi em uma luta, nunca foi feliz de verdade
Para registro: o primeiro torneio de Dragon Ball finaliza em dezembro de 1985, enquanto Os Cavaleiros do Zodíaco inicia sua história com a Guerra Galáctica em janeiro de 1986. Kurumada se inspirou em Toriyama? É possível.
Reveladas as principais referências e curiosidades da época, pode-se dizer certamente que o torneio de artes marciais se torna o maior marco de Dragon Ball nesse início de história. A batalha final contra Pilaf, apesar de divertida, não passa nem perto das emoções e tensões proporcionadas pelas disputas entre os lutadores, com suas técnicas divertidas e criativas. No fim, independentemente de suas influências, o torneio criado por Toriyama é algo único. O humor ainda é parte essencial da narrativa nesse início, e lutas como Kuririn vs. Bactéria demonstram isso. Quando finalmente chegamos à fase eliminatória, onde todos os principais lutadores ganham destaque, percebe-se que algumas combinações de luta poderiam alterar completamente a final do torneio. Se Jackie Chun enfrentasse a bela e maliciosa Lanfan, certamente teria perdido, pois ela apela para truques que facilmente derrotariam nosso velhote tarado. Da mesma maneira, Goku, com seu faro apurado, não poderia vencer o terrível cheiro de Bactéria.
Indo além da diversão de seus combates inusitados ou competitivos, o torneio se torna também uma eficiente ferramenta narrativa para desenvolver os personagens através de dramas pessoais como o de Nam — um lutador que só queria ganhar o prêmio em dinheiro para comprar e levar água para sua pobre vila em um deserto. Ao mesmo tempo, descobrimos que o Mestre Kame é mais do que um "velho sem-vergonha", mas também um personagem com valor moral o suficiente para resolver o drama do lutador (de uma maneira tão simples que não deixa de ser cômica), e capaz de se dedicar a dar valiosas lições para seus discípulos. Abandonando o humor nos momentos certos, a competição entrega combates mais sérios de Goku contra o já citado Nam ou contra o monstro Giran, criando assim a tensão necessária para que os leitores possam torcer pelo protagonista, que acabará enfrentando seu próprio mestre na final — não sem antes um divertido e emocionante combate entre Jackie Chun e Kuririn.
Aqui começa meu lamento por Yamcha em sua queda livre pela história de Dragon Ball. Se na fase anterior ainda conseguiu competir com Goku, mesmo sendo um dos oito finalistas da competição, ele está muito abaixo do Mestre Kame. Serve apenas para mostrar o quanto o seu nível está abaixo dos protagonistas da história. Para enxergar o copo meio cheio, dá pra dizer que pelo menos perdeu para o campeão.
Os finalistas do 21º Tenkaichi Budokai, o primeiro torneio apresentado em Dragon Ball.
Kuririn x Bactéria, Jackie Chun x Yamcha, Nam x Lanfan e Goku x Giran
A grande final, entre Goku e Jackie Chun, se torna o primeiro grande combate de Dragon Ball. Goku é apresentado desde o início da história como um garoto prodígio e com força descomunal. Não se trata de uma fórmula onde o protagonista é fraco e subestimado, evoluindo de maneira inesperada; algo que se tornou um clichê do gênero. Desde o início da luta, o garoto demonstra o quanto é especial ao conseguir combater, anular e pressionar seu mestre. Chun precisa usar todas as suas melhores técnicas para superar seu jovem discípulo. E quando a derrota de Goku parecia certa, uma reviravolta é introduzida graças à transformação do protagonista no poderoso e selvagem Oozaru. Para mostrar seu gosto por quebrar expectativas, Toriyama faz seu protagonista ser derrotado. É impossível não citar a “flexibilidade cômica” das regras ficcionais de Dragon Ball nesse momento quando o Mestre Kame, para anular o Oozaru, destrói a própria Lua com seu Kamehameha.
É preciso exaltar, nesse momento, o fantástico estilo narrativo de Toriyama para criar combates. A fluidez única da sua arte transforma desenhos estáticos em uma folha de papel em verdadeiros quadros de animação de alta qualidade, que se traduzem em puro movimento aos olhos do leitor. Técnicas de luta tradicional de kung fu se integram a golpes da mais pura fantasia criativa, em dinâmicas que se tornaram a marca indelével de sua obra. Não existem dúvidas de que a apoteose de Toriyama como desenhista é atingida diante de seu público graças ao seu talento impressionante para criar e desenvolver batalhas que marcaram para sempre jovens e adultos que acompanharam suas histórias. E o primeiro vislumbre de todo esse potencial é demonstrado na inesquecível final desse torneio.
Ao fim do torneio, Goku se torna um personagem com objetivo definido. As Esferas do Dragão não são mais sua meta principal, e sim sua jornada em busca de se tornar sempre mais forte. Não porque tem um grande sonho, não por vocação altruísta, mas por um desejo de aprimoramento pessoal que supera as motivações comuns de heróis do gênero shonen.
Mas... paremos para refletir por um momento: um personagem cheio de poderes que fluem através de artes marciais, em busca de aperfeiçoamento constante, viajando pelo mundo, enfrentando adversários, aprendendo através de duelos e evoluindo sempre como guerreiro? Vamos lembrar primeiramente dos heróis dos filmes wuxia, já citados anteriormente. Todavia, o que talvez muitos não percebam é que já existia na história japonesa um arquétipo de personagem ainda mais antigo e importante em histórias contadas nas terras nipônicas. Falo do lendário samurai Miyamoto Musashi (1584–1645), personagem real que se tornou um dos maiores modelos de guerreiro na cultura japonesa. Sua história — popularizada em romances como Musashi — influenciou profundamente a construção de protagonistas em mangás de luta e aventura.
Miyamoto Musashi inspirou inúmeros personagens em todos os tipos de mídia
O desapego de Goku por grandes sonhos e ideais, sua personalidade simples, ingênua e determinada rumo à superação de suas próprias habilidades através de combates contínuos, certamente deriva de Musashi de alguma maneira. Então, é razoável afirmar com alguma segurança, que esse amálgama da personalidade de Musashi, peculiaridades de heróis de filmes wuxia e inspirações visuais em Sun Wukong, o Rei Macaco, acabou criando aquele que se tornou, na cultura popular, o grande expoente de protagonista motivado por uma jornada de aperfeiçoamento contínuo e superação pessoal. E, ainda assim, Son Goku nunca se torna um herói clássico, mas sim um novo modelo de anti-herói, muito antes de eles se tornarem moda na cultura pop. Afinal de contas, Goku não se torna um justiceiro altruísta ou abnegado, e sim alguém que salva o mundo somente como consequência do seu desejo egoísta — e, por vezes, inconsequente — por mais e mais lutas desafiadoras que possam o aperfeiçoar como lutador.
Para um protagonista que o editor de Toriyama dizia ser simples demais, me parece que a simplicidade de Goku sempre escondeu uma complexidade insuspeita a partir dessa guinada elaborada pela grande capacidade de improviso do autor de Dragon Ball. De várias formas, a mágica de Toriyama é a mesma que move todos os grandes autores e contadores de história: a capacidade de combinar, de maneira única, referências e elementos de grandes obras na criação de personagens e de um universo ficcional completamente distinto e marcante. Tudo isso com uma demonstração de habilidade para improviso criativo inigualável e inovadora o suficiente para construir, sem nenhum grande planejamento, um triunfo capaz de produzir um dos maiores fenômenos da cultura pop mundial.
No fim, a derrota de Goku em sua primeira grande competição é apenas o primeiro passo para sua escalada imparável rumo ao mais alto nível das artes marciais e ao topo do imaginário coletivo moderno.
O anime, que estreou em 1981, detém até hoje uma das maiores audiências da história na TV. Arale havia se tornado até mesmo um ícone fashion, inspirando uma moda com “óculos Arale” e ajudando a criar o universo do cosplay no Japão. Mesmo sendo um Shonen, Dr. Slump trouxe uma protagonista feminina forte, engraçada e "estilosa". Isso atraiu um público feminino massivo para as convenções de mangá, e a Arale tornou-se o cosplay número um entre as mulheres naquela década.
Arale deixou Toriyama rico muito antes de Goku existir
Em entrevista de Toriyama publicada na Daizenshuu 2, segundo volume do guia enciclopédico oficial sobre a série, o autor revela que Dragon Ball, em sua publicação até o fim da saga de Pilaf, não estava à altura da popularidade do seu sucesso anterior com o público japonês. Segundo o editor de Toriyama, o problema estava na simplicidade de Goku. A partir disso, o mangaká decide dar a Goku uma jornada para o tornar mais forte; o primeiro passo para isso é apostar em uma fórmula consagrada em filmes de kung fu que Toriyama adorava, e isso iria definir todo o gênero shonen.
Nesse contexto, o mangá Fist of the North Star (Hokuto no Ken) fazia sucesso na Shonen Jump e, de alguma maneira, também deve ter influenciado Toriyama (ou mesmo o seu editor). O protagonista dessa história é Kenshiro, sucessor de uma arte marcial secreta chamada Hokuto Shinken. Esse herói representa o modelo do guerreiro solitário que restaura a justiça em um mundo brutal, enquanto desafia e derrota inimigos cada vez mais fortes. Nem Dr. Slump nem o primeiro arco de Dragon Ball seguiram esse tipo de fórmula, mas Toriyama iria integrá-la ao seu novo universo ficcional.
O punho que deu um norte para Dragon Ball?
Nessa nova etapa da sua jornada, Goku resolve ir atrás do Mestre Kame para ser treinado. O "velho safado" já havia deixado claro que tinha interesse em treinar o pequeno prodígio com rabo de macaco. Toriyama aproveita para inserir na história o simpático e carismático Kuririn. O novo personagem é uma inspiração direta nos monges Shaolin, que se tornaram onipresentes no imaginário moderno do século XX. Kuririn apresenta na testa as cicatrizes de queimadura usadas por monges budistas chineses. Essas marcas são chamadas de jieba e são feitas em cerimônias de ordenação como símbolo de devoção, disciplina e cumprimento de preceitos. Suas vestes amarelas são típicas dos monges budistas da vida real, e sua origem, o Templo Orin, é uma referência direta ao famoso Templo Shaolin, na China.
Os monges Shaolin ficaram famosos por participarem de conflitos reais, especialmente durante a dinastia Tang. A partir disso, tornaram-se populares primeiro pela literatura popular chinesa (Jornada ao Oeste é um dos melhores exemplos) e pelos filmes do gênero wuxia, onde heróis justiceiros com grandes poderes, originados do domínio absoluto das artes marciais, combatiam o mal enquanto trilhavam jornadas de aperfeiçoamento pessoal e moral. Parece familiar? Pois é... Todo shonen bebeu nessa fonte, seja pelos filmes ou pelo próprio Dragon Ball. Mas esse é um ponto ao qual ainda iremos voltar.
Mestre Kame merece também uma rápida análise. Talvez hoje seja bem comum pensarmos em velhos mestres cômicos e/ou assanhados, mas certamente Muten Roshi (se traduz como mestre ancião invencível), é a grande referência para as histórias que vieram depois. Beggar So, do filme O Mestre Bêbado (Drunken Master, 1978), parece ter sido uma das principais inspirações para Kame. No filme, ele é uma figura excêntrica e alcoólatra que submete o personagem de Jackie Chan a treinamentos estranhos, como carregar jarras pesadas ou quebrar nozes com os dedos, com o objetivo de dominar a técnica do “punho bêbado”. Não por acaso, Mestre Kame vai usar a mesma técnica durante o torneio.
Cartaz de Drunken Master. Beggar So treinando o personagem de Jackie Chan
Assim, a partir dos elementos descritos, a dinâmica entre Mestre Kame, Goku e Kuririn se torna o núcleo de situações hilárias (boa parte politicamente incorretas, não vamos deixar de registar), que vão da tara do velhote por jovens mulheres aos treinamentos absurdos pelos quais Goku e Kuririn precisam passar (nenhum melhor e mais marcante do que os dois amarrados em uma árvore enquanto precisam aprender a se desviar de abelhas furiosas, momento absolutamente hilário). Nasce também uma rivalidade divertida entre o malicioso Kuririn e o ingênuo Goku.
O clímax de toda essa etapa é o primeiro torneio de artes marciais. Nessa época, campeonatos desse estilo eram comuns em mangás de esporte como Ring ni Kakero (publicado entre 1977 e 1981) e Ashita no Joe (publicado entre 1968 e 1973), ambos sobre boxe, e Karate Baka Ichidai (de 1971 a 1977), obviamente uma história sobre karatê. Mesmo assim, essas disputas estavam longe de ser um clichê essencial no gênero shonen. Então, relembrando da popularidade desse tipo de competição em Dr. Slump e se valendo de elementos típicos de torneios desse estilo nos filmes wuxia, Toriyama nos entrega o ápice dessa nova fase.
Buscando no cinema as principais referências dessa ideia, começamos com Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973), estrelado por Bruce Lee — um mestre Shaolin competindo em um torneio de artes marciais em uma ilha — e O Mestre da Guilhotina Voadora (Master of the Flying Guillotine, 1976). Em ambos os filmes, lutadores de diferentes partes do mundo e com diferentes estilos se enfrentam. Com um torneio nesse mesmo modelo, Jackie Chan protagonizaria A Fúria do Protetor (The Big Brawl, 1980). É quase desnecessário dizer que o pseudônimo Jackie Chun, usado pelo Mestre Kame, é diretamente inspirado no ator. Em entrevistas, o mangaká sempre deixou clara sua grande inspiração nos filmes de Jackie Chan, pois traziam essa pitada de humor com artes marciais que se tornou a marca desse início das aventuras de Goku. Curiosamente, o nome Dragon Ball se inspira principalmente no já citado Operação Dragão, de Bruce Lee. A explicação para isso, segundo ele, é que qualquer filme de kung fu precisava usar “Dragão” em seu nome (sendo Operação Dragão o primeiro a inspirar todos os outros). Logo, se ele pretendia que o seu mangá fosse uma aventura com lutadores de kung fu, também precisava carregar “Dragão” em seu título.
No Brasil, Operação Dragão era um clássico do SBT
Também interessante notar que treinamentos que precedem os torneios fazem parte da fórmula desses filmes, mas nenhum deles possui um treinamento tão pouco convencional quanto Karatê Kid de 1984, onde o Sr. Miyagi, mestre de Daniel San, protagonista do filme, treina seu discípulo com tarefas domésticas que no fim se revelam grandes segredos para aprimorar as habilidades de luta do seu jovem aprendiz antes do torneio final do filme. Extremamente provável que Karatê Kid também se inspira em Drunken Master. Mas... os treinamentos de Goku e Kuririn podem também ter se inspirado em Karatê Kid? Apesar do filme ser de 84, ele só chega no Japão em fevereiro de 1985. Em tempo de inspirar Toriyama? Sim. Realmente inspirou? Difícil saber. Mas é no mínimo é curioso ter duas obras de sucesso seguindo essa fórmula de treinamento no ano de 85 no Japão.
Uma criança que nunca usou o Karatê aprendido com o Sr. Miyagi em uma luta, nunca foi feliz de verdade
Para registro: o primeiro torneio de Dragon Ball finaliza em dezembro de 1985, enquanto Os Cavaleiros do Zodíaco inicia sua história com a Guerra Galáctica em janeiro de 1986. Kurumada se inspirou em Toriyama? É possível.
Reveladas as principais referências e curiosidades da época, pode-se dizer certamente que o torneio de artes marciais se torna o maior marco de Dragon Ball nesse início de história. A batalha final contra Pilaf, apesar de divertida, não passa nem perto das emoções e tensões proporcionadas pelas disputas entre os lutadores, com suas técnicas divertidas e criativas. No fim, independentemente de suas influências, o torneio criado por Toriyama é algo único. O humor ainda é parte essencial da narrativa nesse início, e lutas como Kuririn vs. Bactéria demonstram isso. Quando finalmente chegamos à fase eliminatória, onde todos os principais lutadores ganham destaque, percebe-se que algumas combinações de luta poderiam alterar completamente a final do torneio. Se Jackie Chun enfrentasse a bela e maliciosa Lanfan, certamente teria perdido, pois ela apela para truques que facilmente derrotariam nosso velhote tarado. Da mesma maneira, Goku, com seu faro apurado, não poderia vencer o terrível cheiro de Bactéria.
Indo além da diversão de seus combates inusitados ou competitivos, o torneio se torna também uma eficiente ferramenta narrativa para desenvolver os personagens através de dramas pessoais como o de Nam — um lutador que só queria ganhar o prêmio em dinheiro para comprar e levar água para sua pobre vila em um deserto. Ao mesmo tempo, descobrimos que o Mestre Kame é mais do que um "velho sem-vergonha", mas também um personagem com valor moral o suficiente para resolver o drama do lutador (de uma maneira tão simples que não deixa de ser cômica), e capaz de se dedicar a dar valiosas lições para seus discípulos. Abandonando o humor nos momentos certos, a competição entrega combates mais sérios de Goku contra o já citado Nam ou contra o monstro Giran, criando assim a tensão necessária para que os leitores possam torcer pelo protagonista, que acabará enfrentando seu próprio mestre na final — não sem antes um divertido e emocionante combate entre Jackie Chun e Kuririn.
Aqui começa meu lamento por Yamcha em sua queda livre pela história de Dragon Ball. Se na fase anterior ainda conseguiu competir com Goku, mesmo sendo um dos oito finalistas da competição, ele está muito abaixo do Mestre Kame. Serve apenas para mostrar o quanto o seu nível está abaixo dos protagonistas da história. Para enxergar o copo meio cheio, dá pra dizer que pelo menos perdeu para o campeão.
Os finalistas do 21º Tenkaichi Budokai, o primeiro torneio apresentado em Dragon Ball.
Kuririn x Bactéria, Jackie Chun x Yamcha, Nam x Lanfan e Goku x Giran
A grande final, entre Goku e Jackie Chun, se torna o primeiro grande combate de Dragon Ball. Goku é apresentado desde o início da história como um garoto prodígio e com força descomunal. Não se trata de uma fórmula onde o protagonista é fraco e subestimado, evoluindo de maneira inesperada; algo que se tornou um clichê do gênero. Desde o início da luta, o garoto demonstra o quanto é especial ao conseguir combater, anular e pressionar seu mestre. Chun precisa usar todas as suas melhores técnicas para superar seu jovem discípulo. E quando a derrota de Goku parecia certa, uma reviravolta é introduzida graças à transformação do protagonista no poderoso e selvagem Oozaru. Para mostrar seu gosto por quebrar expectativas, Toriyama faz seu protagonista ser derrotado. É impossível não citar a “flexibilidade cômica” das regras ficcionais de Dragon Ball nesse momento quando o Mestre Kame, para anular o Oozaru, destrói a própria Lua com seu Kamehameha.
É preciso exaltar, nesse momento, o fantástico estilo narrativo de Toriyama para criar combates. A fluidez única da sua arte transforma desenhos estáticos em uma folha de papel em verdadeiros quadros de animação de alta qualidade, que se traduzem em puro movimento aos olhos do leitor. Técnicas de luta tradicional de kung fu se integram a golpes da mais pura fantasia criativa, em dinâmicas que se tornaram a marca indelével de sua obra. Não existem dúvidas de que a apoteose de Toriyama como desenhista é atingida diante de seu público graças ao seu talento impressionante para criar e desenvolver batalhas que marcaram para sempre jovens e adultos que acompanharam suas histórias. E o primeiro vislumbre de todo esse potencial é demonstrado na inesquecível final desse torneio.
Ao fim do torneio, Goku se torna um personagem com objetivo definido. As Esferas do Dragão não são mais sua meta principal, e sim sua jornada em busca de se tornar sempre mais forte. Não porque tem um grande sonho, não por vocação altruísta, mas por um desejo de aprimoramento pessoal que supera as motivações comuns de heróis do gênero shonen.
Mas... paremos para refletir por um momento: um personagem cheio de poderes que fluem através de artes marciais, em busca de aperfeiçoamento constante, viajando pelo mundo, enfrentando adversários, aprendendo através de duelos e evoluindo sempre como guerreiro? Vamos lembrar primeiramente dos heróis dos filmes wuxia, já citados anteriormente. Todavia, o que talvez muitos não percebam é que já existia na história japonesa um arquétipo de personagem ainda mais antigo e importante em histórias contadas nas terras nipônicas. Falo do lendário samurai Miyamoto Musashi (1584–1645), personagem real que se tornou um dos maiores modelos de guerreiro na cultura japonesa. Sua história — popularizada em romances como Musashi — influenciou profundamente a construção de protagonistas em mangás de luta e aventura.
Miyamoto Musashi inspirou inúmeros personagens em todos os tipos de mídia
O desapego de Goku por grandes sonhos e ideais, sua personalidade simples, ingênua e determinada rumo à superação de suas próprias habilidades através de combates contínuos, certamente deriva de Musashi de alguma maneira. Então, é razoável afirmar com alguma segurança, que esse amálgama da personalidade de Musashi, peculiaridades de heróis de filmes wuxia e inspirações visuais em Sun Wukong, o Rei Macaco, acabou criando aquele que se tornou, na cultura popular, o grande expoente de protagonista motivado por uma jornada de aperfeiçoamento contínuo e superação pessoal. E, ainda assim, Son Goku nunca se torna um herói clássico, mas sim um novo modelo de anti-herói, muito antes de eles se tornarem moda na cultura pop. Afinal de contas, Goku não se torna um justiceiro altruísta ou abnegado, e sim alguém que salva o mundo somente como consequência do seu desejo egoísta — e, por vezes, inconsequente — por mais e mais lutas desafiadoras que possam o aperfeiçoar como lutador.
Para um protagonista que o editor de Toriyama dizia ser simples demais, me parece que a simplicidade de Goku sempre escondeu uma complexidade insuspeita a partir dessa guinada elaborada pela grande capacidade de improviso do autor de Dragon Ball. De várias formas, a mágica de Toriyama é a mesma que move todos os grandes autores e contadores de história: a capacidade de combinar, de maneira única, referências e elementos de grandes obras na criação de personagens e de um universo ficcional completamente distinto e marcante. Tudo isso com uma demonstração de habilidade para improviso criativo inigualável e inovadora o suficiente para construir, sem nenhum grande planejamento, um triunfo capaz de produzir um dos maiores fenômenos da cultura pop mundial.
No fim, a derrota de Goku em sua primeira grande competição é apenas o primeiro passo para sua escalada imparável rumo ao mais alto nível das artes marciais e ao topo do imaginário coletivo moderno.
Continua....
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