Não considero um espantalho porque na prática, dá na mesma. Sua premissa é de que seria invariavelmente ruim para o Brasil, como nação, isso acontecer porque os interesses dos EUA aparentemente jamais estariam alinhados ao PCC deixar de existe ou ser combatido seriamente.
Quanto ao motivo pelo qual sugeriu o livro, não, não estou caindo no viés de substituição. Vc está enviesando a conversa tentando estabelecer quais perguntas seriam as importantes.
A pergunta "como decretar o PCC como terrorista vai diminuir a exposição do cidadão comum ao crime" foi respondida no tópico por mim, e por outros, diversas vezes. As respostas irônicas chamando de ingenuidade ou seja o que for não mudam o fato de que não é um argumento contra a resposta, ironizar não é argumento, é lacrar.
As perguntas que eu me faço ao ver o questionamento do tópico e as respostas, são:
- Claramente apontar que considerar o PCC como organização terrorista é errado ou pior, infere que o status quo é melhor. Porque nada aqui é feito para combater o PCC há fucking décadas.
- Que combater o PCC seriamente, meter pena fudida tráfico e matar geral estilo El Salvador seria melhor é obvio, mas aqui estamos andando no sentido oposto a esse (PCC agora envolvido com políticos, judiciário etc), então como manter isso seria menos danoso do que o grupo SER considerado terrorista e isso gerar algum tipo de ação contra eles... ou no mínimo pressão nesse sentido?
E não um status quo rígido, seja minha fonte falando em centena de dezenas de bilhões, seja a sua falando em vários bilhões, o fato é que o PCC cresceu num nível exponencial que surpreendeu todo mundo.
Que o México é mais violento que provavelmente qualquer país do mundo acho que é obvio e motivo é crime organizado.
Nesse contexto, do crime organizado crescer numa velocidade surreal e nada ser feito, as minhas perguntas são, para mim, muito mais práticas, complexas e ligadas ao assunto do que as diretrizes políticas dos EUA.
Quanto a Colombia, revés econômico e refugiados porque o TAMANHO do crime organizado lá só chegou pq ng fez nada né... e seu argumento era a exposição à sanções e vc o mudou aqui, combater algo nesse nível (supondo que aqui não esteja como estava na Colombia no final da década de 90) vai ter impacto e isso é obvio, mas não é o argumento que vc mesmo tinha proposto.
Inglaterra não faz sentido "pq sim" e não encaixa no seu argumento, mas enfim, o exemplo tá aí.
Quanto as FARC serem de fato um grupo terrorista e o PCC não, eu não discordo, isso eu falei na minha primeira postagem. Não acho que o PCC dê "check" em tudo que engloba, mas se o considerar grupo terrorista exigir enfrentamento real até para não foder o país todo, concordo.
Caiu no viés e continua caindo, porque eu falei explicitamente os mecanismos e você me citou substituindo o debate respondendo uma pergunta mais fácil e tangencial, algo na linha de "combater o PCC seriamente seria melhor?". É óbvio que precisamos combater o crime, eu nunca disse um A ao contrário disso. A questão que trouxe é simplesmente um desenvolvimento sobre o tema central do tópico: a designação de Organização Terrorista é a ferramenta certa para isso?
E aí, perceba que, de novo, nós ficamos girando entorno dos mesmos temas. Eu já mostrei os motivos pelos quais essa classificação é (ge)política, não técnica e você também concorda que considerar eles um grupo terrorista exige uma interpretação bem abrangente do que é terrorismo.
Ou seja: você reconhece que abraçar o rótulo mágico de terrorista é só uma
esperança de que isso force um "matar geral estilo El Salvador", ou que faça o Estado brasileiro acordar para o problema da segurança pública. O seu mecanismo de resolução é a
esperança de que uma sanção do Tesouro Americano vá "gerar algum tipo de ação... ou pressão".
Bom, primeiro que esse é um tema extenso e complexo por si só e que combater as facções é só uma parte da melhoraria da segurança pública, porque os caras do PCC que estão envolvidos com tráfico internacional e lavagem pesada de dinheiro não são os mesmos "dois caras na moto" que enfiam um revolver na sua cara. Veja que o Japão ou a Itália tem criminalidade de rua ridiculamente pequena e a Yakuza e Ndrangheta são muito, mas muito mais poderosas que o PCC. E não custa lembrar que aqui a violência urbana e o crime são muito mais antigos que a hegemonia dessas facções. Nosso problema primário das ruas tem raízes estruturais que sanção financeira internacional nenhuma vai "consertar".
Por isso a pergunta permanece: COMO os EUA declarar o PCC como FTO vai diminuir nossa (minha, sua, do cidadão comum que anda nas ruas) exposição ao crime?
De forma alguma foi debatido isso, principalmente considerando o exemplo do México e de como eles tiveram um aumento da violência, não diminuição, ou de como isso tem prejudicado o Equador. Por isso disse que aqui é puro suco do
wishful thinking. Vai virar El Salvador, vamo matar geral, os rangers bombadões vão na Zona Leste pegar o pessoal do PCC no tapa etc.
Sobre o México, aliás, o cidadão comum hoje está muito mais exposto à violência do que há 20 anos atrás: os grupos se fragmentaram e entraram em guerra pelo controle territorial, que coincidentemente são travadas hoje (em partes) com armas traficadas por servidores de agências governamentais dos próprios EUA, veja só que ironia! Ao invés de combater na inteligência, fizeram da forma mais burra possível, e a designação FTO mais recente já levou vários escritórios jurídicos e consultorias a emitir alertas sérios sobre fuga de capital e retração do FDI em setores inteiros da economia mexicana.
Sobre "EUA malvadão", é um espantalho porque eu não fiz nenhum tipo de julgamento moral dos EUA, só uma análise do que é a realidade. O Brasil é um país territorialmente extenso, com uma população muito numerosa e com muitos recursos naturais. É importante para os EUA que fiquemos sob as asas deles, não podem se dar ao luxo de ter minimamente um rival ou oponente (mesmo que econômico) na América do Sul, até pela nossa proximidade geográfica. Isso não é coisa minha, é coisa que os próprios americanos argumentam. Para isso eles vão usar meios que são mutuamente benéficos (comércio, parcerias, etc) e meios que são expressamente designados para nos prejudicar/atrasar. De novo: se os EUA fossem essa entidade mágica e benéfica que 80% da pasta acredita que eles sejam, e realmente estivessem interessados no nosso desenvolvimento material, eles teriam se oposto ao acordo nuclear? À transferência de tecnologia ucraniana?
É evidente que eles não são bobos e vão sempre pensar no deles e das elites econômicas deles primeiro. Não estão errados, quem está errado somos NÓS que não pensamos no nosso. Esse é o ponto que tem que ser analisado.
Eu já falei porque sou contra, no meu entender a lógica é clara: a partir do momento que o PCC entrar nessa lista, qualquer banco gringo, fundo de investimento, multinacional, etc., que operar no Brasil ficará exposto ao risco nas suas operações aqui. Um banco que listava um fundo que tinha um fulaninho que era ligado ao PCC = fudeu absolutamente. Para não correr o risco de tomar multas bilionárias do Tesouro Americano, todo mundo vai fazer um
de-risking significativo. A consequência disso é o nosso risco-país aumentando, fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (FDI) travando porque o capital foge da insegurança jurídica de operar numa "zona com terroristas", crédito internacional para o nosso agronegócio, para a nossa indústria e infraestrutura ficando mais restrito e caro (80% da dívida externa do Brasil hoje é detida por captações do setor privado) etc. São as alavancas que podem facilmente ser acionadas.
O câmbio deprecia, mercado resfria e ADVINHA só com o que isso se correlaciona? Aumento de criminalidade nas ruas.
E sim, o exemplo da Inglaterra é delirante porque eles são parte central da hegemonia ocidental junto com os EUA, é óbvio que eles nunca vão tomar nenhum tipo de sanção. O Brasil não é, somos um país periférico. As coisas tem que ser vistas como elas são, não como queríamos que elas fossem.
Enfim, é por aí. Você não concordará, óbvio, mas os pontos são esses. É aguardar e ver o que será e os resultados que teremos.