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[Catálogo] Histórias da África

Goris

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Já que degringolamos para falar de negros em outros lugares:

Quem foram os africanos que viveram na Rússia Imperial?
HISTÓRIA
30 DE AGOSTO DE 2018
OLEG EGORIVISKY


Pintura do palácio do imperador com ‘arap’.
Mihály Zichy/Hermitage Museum





O maior poeta da Rússia tinha um ancestral africano e muitos negros africanos fizeram suas fortunas na corte imperial russa.

“Eles olharam para o jovem negro como se ele fosse um milagre, cercaram-no, cobrindo-o de cumprimentos e perguntas; mas esse tipo de curiosidade aborrecia sua autoestima... Ele se sentia como algum tipo de animal raro.”

Assim escreveu Aleksandr Púchkin, maior poeta da Rússia, em seu romance histórico escrito no século 19 "O negro de Pedro, o Grande" (em português, o texto integra o livro "A Dama de Espadas - Prosa e Poemas", pela Editora 34). Nele, Púchkin descrevia a vida de um homem africano chamado Ibrahim na corte do tsar.
O escritor teve motivos pessoais para produzir tal romance. Ibrahim era uma figura histórica, um escravo da África que mais tarde prosperou na Rússia, tornou-se um nobre e ajudou a estabelecer toda uma dinastia. Muito além disso, Púchkin era seu bisneto.

Fazendo o pé de meia na Rússia

Monumento a Abram Gannibal na aldeia de Petrovskoie, região de Pskov, Rússia.
Ludushka/Wikipedia


Passaram-se séculos desde então, por isso é difícil determinar de onde exatamente veio Ibrahim (1696 - 1781). Suas biografias mais antigas afirmam que ele nasceu na Etiópia, mas o pesquisador e eslavista beninense Dieudonné Gnammankou afirmou posteriormente que Ibrahim era, na realidade, de Camarões.

Qualquer que seja sua verdadeira pátria, é quase certo que os turcos o tenham sequestrado e, por meio do tráfico de escravos, ele teria acabado na corte russa.
Pedro, o Grande, tratava Ibrahim bem, e não apenas lhe concedeu liberdade, mas o batizou de Abram Petrovitch Gannibal (em homenagem ao conhecido comandante norte-africano do Antigo Cartago, sobrenome que o próprio Ibrahim escolheu).


Um suposto retrato do jovem Abram Gannibal.
Legion Media


Ibrahim concluiu cursos militares e de engenharia, estudou na França e trabalhou como secretário do imperador. Gnammankou ressalta que Gannibal ajudou a desenvolver relações russo-francesas ao visitar Paris junto com seu soberano.

"O africano, digo, o afro-russo, testemunhou e ajudou a estabelecer relações diplomáticas, científicas e culturais entre esses dois grandes países europeus: Rússia e França", explicou Gnammankou à agência de notícias russa Tass.

Gannibal também teve seu quinhão de dificuldades. Depois que Pedro, o Grande, morreu em 1725, ele caiu em desgraça com o novo governante da Rússia e foi exilado na Sibéria.

Quando a filha de Pedro, Isabel, subiu ao trono, Gannibal retornou a sua propriedade, onde viveu por muito tempo e teve 11 filhos. Entre eles estava o avô de Púchkin, Osip Gannibal. Portanto, o poeta nunca se esqueceu de suas raízes africanas.

Cortesãos negros

Retrato de Pedro, o grande, com um criado negro.
Baron Gustav von Mardefeld


A história de Gannibal é bastante fora do comum, mas não é a única. Nos séculos 18 e 19, muitos negros africanos serviram na corte russa como “araps”.
Mas não confunda o termo com “árabe”. Um “arap”, de acordo com o dicionário de 1863 de Vladímir Dal, significava “uma pessoa de pele negra dos países quentes, principalmente da África”. Seu segundo significado era de “porteiro” – que foi como os “araps” serviram a corte.

Sophie Buxhoeveden, dama de honra da imperatriz Aleksandra (mulher de Nikolai 2°), relembrava: “Servas negras vestidas com roupas orientais davam um gosto especial e exótico a tudo no palácio”. A presença delas simbolizava o tamanho e poder do império, que tinha o mundo inteiro na palma das mãos.
Parece racista? E quanto! Mas a prática era comum na maioria das cortes europeias da época, e era muito bem paga.

"Os ‘araps’ estavam entre os poucos no palácio do tsar que tinham um salário, e este era bem gordo", explica o historiador Igor Zimin em seu livro “A corte dos imperadores russos”. A maioria dos servos ali trabalhava em troca de um quarto e refeições.

Rússia como oásis

George Maria, um ‘arap’ de Cabo Verde que se instalou na Rússia.
Domínio público


No século 19, muitos africanos nos EUA acreditavam que se mudar para a Rússia era uma chance de ter uma vida melhor e fugir da brutalidade da escravidão norte-americana.

“O primeiro ‘arap’ americano na corte russa era um ex-criado do enviado americano a São Petersburgo que conseguiu um novo emprego em 1810. Parece que as notícias desse bom trabalho se espalharam rapidamente pelos portos americanos e muitos aventureiros negros correram para a Rússia, na maioria das vezes, como marinheiros nos poucos navios que iam a São Petersburgo”, escreveu Zimin.

Mas a competição por trabalho era intensa e, durante o reinado de Nikolai 1° (1825 - 1855) limitaram-se a oito o número de ‘araps’ de tribunal. Imperatrizes anteriores com uma queda pelo exotismo tinham dezenas de servos negros. Quanto mais negro e mais alto o pretendente a funcionário fosse, melhor, de acordo com a Zimin. Além disso, qualquer um que quisesse servir na corte era obrigado a ser batizado no Cristianismo (não necessariamente na Igreja Ortodoxa Russa).

Não foram apenas os norte-americanos que se tornaram ‘araps’. A funcionária do museu estatal russo Hermitage Nina Tarasova conta a história de George Maria, da colônia portuguesa de Cabo Verde, que serviu na corte tsarista por muitos anos e permaneceu na Rússia muito depois da abdicação de Nikolai 2°.
"Ambos seus filhos lutaram na Grande Guerra Patriótica. Um deles morreu e o outro conseguiu sobreviver até o Dia da Vitória", conta Tarasova.
 


Delta Stigma

Ser evoluído
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Bom, gosto um bocado de história e acho que a História da África é muito pouco comentada em nossas escolas, mesmo com metade de nossa população, assim como eu, ter sangue africano em suas veias.

Ainda pretendo fazer um tópicos separados sobre os países socialistas da África, mas queria um tópico especial só pra histórias da África e africanos. Poderia ser um tópico apenas sobre história?
Claro que sim.
Mas ao contrário do Japão, Europa e Américas, raramente temos tópicos sobre a África e os africanos e, ao invés de vários tópicos separados, resolvi fazer um único tópico e ir colocando matérias aleatórias aqui.

Quando o texto for meu, tentarei colocar fontes (se for possível) e se for de outros, colocarei links para a matéria original. Espero que gostem.
No caso, você não está falando muito sobre o continente africano, Japão e Rússia não são importantes para a historia do continente africano, principalmente por eles não terem colonias nela.
 

sparcx86_GHOST

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Imagine só ver um samurai preto, automaticamente o oponente já deveria desistir achando ser um Oni pois nao estavam acostumados com pessoas de outras raças no Japão. Há estórias sobre os vikings que teriam chegado ao Japão e como tinham aparência diferente eram vermelhos e grandes logo eram tidos como demônios de outro mundo!
 

Baralho

Bam-bam-bam
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Judaísmo parece que é religião sim; do povo hebreu para o povo hebreu {raiz "Isaqueana" de Abraão}.

Depois vem o gentílico Israelense, como uma referência aos nativos do moderno Estado do povo hebreu, sejam judeus ou não.
 


sebastiao coelho neto

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É uma etnia também, faz um bom tempo que é visto assim, tanto que não existe conversão ao judaísmo.
Não é bem assim:
"...A concepção judaica diz que judeu é aquele que nasce de mãe judia ou quem se converte de acordo com a Halachá, a Lei Judaica. Da mesma forma que ao nascer uma criança de um ventre judaico, adentra nela, automaticamente, uma alma judia, o mesmo ocorre com uma pessoa que passa por uma conversão feita conforme os pormenores da Halachá.

O que significa "feito conforme a Halachá"? Antes de mais nada, a Lei Judaica descreve que uma pessoa só pode passar por uma conversão quando tem a única e exclusiva intenção de abraçar o judaísmo por ideologia, ou seja, por achar que esta é a religião correta a seguir conforme seu entender, sem segundas intenções....
"
http://www.chabad.org.br/interativo/FAQ/tor_judeu.html

A chamada etnia judaica na verdade é uma forma de diferenciar os judeus que se espalharam pelo mundo após a diáspora. Ou seja, não é uma etnia baseada no fenótipo ou na cor da pele, mas da região ( https://pt.wikipedia.org/wiki/Etnias_judaicas ) e foi determinada pelos próprios, sem convergência biológica.

Além disso, a origem étnica dos judeus é a mesma de todos os povos do oriente médio, inclusive os palestinos (https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Invenção_do_Povo_Judeu ; https://www.pnas.org/content/97/12/6769.full#F2 )
 

Ronin Ogun

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Bom tópico.
África é o berço da civilização e mostra como ação dos exploradores pode ser destrutiva (como se não bastasse a própria autodestruição do homem).
 

Beren_

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Quase tão antiga quanto a Etiópia, a Somália é o triste caso de um povo e um governo que implodiram e se desintegraram nas últimas décadas. Quando se pensa em Somália, você pensa em crianças guerreiras, senhores da guerra e piratas modernos. Mas o país nem sempre foi assim. Por muito tempo a Somália foi uma das mais ricas terras do mundo.

República Democrática da Somália


Somália - O Chifre da África

Na antiguidade, mercadores punt comercializavam com o Egito, Fenicia, Micenas (Grécia), Babilônia e demais potências da época. Restos arqueológicos de pirâmides, templos e casas de alvenaria mostram a avançada arte técnica desse povo. Sua posição estratégica, no chamado Chifre da África permitia a seus comerciantes trocarem produtos com as distantes Roma e Índia e trouxeram riqueza e prosperidade a seu povo.


Ruínas somalis​

Enquanto a Etiópia se tornava cristã, a Somália se tornou islâmica de forma gradativa e pacífica, durante séculos de comércio com povos árabes, de forma que Mogadício chegou a ser considerada, por anos, a "Cidade do Islã" e controlou o comércio de ouro de todo o leste africano. E, quando, por volta de 1500 os portugueses se aliaram aos etíopes (abissínios) na luta contra os somalis islâmicos, foram derrotados quando, pela primeira vez na história da África, armas de fogo foram utilizadas por uma nação africana.


As táticas dervishes derrotaram 4 vezes os atacantes ingleses

Sua fama após derrotar por quatro vezes as forças militares do até então irresistível exército imperial inglês fez com que a Somália fosse cortejada e, logo após, aliada dos Impérios Alemão e Otomano. A rigor, a única nação islâmica independente a lutar na primeira guerra mundial foi a Somália. Mas a decisão de se aliar a alemães e otomanos, ambos derrotados, fez com que os ingleses decidissem tentar uma quinta invasão. Desta vez com uma diferença fundamental:

O avião!

Após vários bombardeios, e sem recursos anti-aéreos, a capital se rendeu, em 1920 e finalmente, depois de mais de 2 milênios, a Somália se tornou uma colônia de outro povo. Foram 30 anos de colonização, que subitamente terminaram quando a Inglaterra havia saído arrasada da Segunda Guerra Mundial. Sem condições de manter o poder sobre a Somália, mas não querendo que o país caísse na área de influência dos soviéticos, a coroa britânica ofereceu ao país sua liberdade de volta e mais ainda, a chance de participar do mercado comum das ex colônias britâncias.

Nesse período, fins dos anos 40 e início dos anos 50 a Inglaterra concede independência à Somália, mas um período de transição faz parte dos acordos entre o status de colônia e a independência total. O objetivo era uma transição pacífica e gradual. Embora boa parte da população aceitasse esse acordo, o grupo político SYL (guarde esse nome) se posicionou abertamente contra uma transição pacífica e lenta, mas ainda nao tinha poder para influenciar os destinos do país, apenas fazendo oposição e prevendo o fim do país e o apocalipse caso se seguisse o plano imperialista inglês.

É, conhecemos essa ladainha aqui no Brasil, né?

Vale comentar que nem tudo eram flores, no acordo, uma parte relativamente rica do país foi entregue à Etiópia (ingleses e sua sensibilidade colonial), o que gerava ainda mais motivos para o SYL vociferar contra a independência lenta.

Ao contrário dos alertas (na verdade, esperanças) do SYL, o período de transição foi cultural, política e economicamente vantajoso aos somalis. O país cresceu economicamente, a administração italiana e inglesa estava formando uma elite regional (a odiada classe média) educada e cosmopolita. A posição do país, próximo ao oriente médio, egito, ìndia e cia o tornava um ponto comercial interessante, os anos 50-60 foram anos de grande melhoria material para o povo somali, que vivia mais e melhor que os seus vizinhos.

Após a independência formal, o SYL - grande expoente da luta contra o colonialismo - se tornou o principal partido político do país. E foi nos anos 60 que o governo começou a se aproximar mais da URSS, que fornecia armas, treinamentos e ajuda diplomática e da China, que fornecia empréstimos para aplicações civis. Vale muito lembrar que essa bondade socialista toda era sem segundas intenções. Levar soldados e políticos para serem doutrinadostreinados nestes países, vendo as coisas grandiosas que o socialismo trazia apenas servia a propósitos humanistas.

A princípio, o SYL não era um partido socialista, mas a aproximação com a China e URSS acabou levando amplos setores da sociedade a se tornarem simpáticos ao socialismo. Como eu disse, políticos, estudantes e até militares iam fazer visitas a esses países e ficavam maravilhados com as maravilhas do socialismo. Oras, a Somália havia crescido muito, mas ainda era uma nação atrasada.

Claramente isso acontecia porque os EUA não queriam uma Somália livre, a solução seria implantar o socialismo na Somália.

Imaginem, se com o livre-comércio capitalista opressor a Somália cresceu tanto em meros 10 anos, quanto o país não cresceria se seguisse os passos de nações ricas e poderosas como URSS e China? O socialismo e a liberdade da ditadura do Proletariado poderiam transformar a Somália num paraíso.

O que poderia dar errado?

Nisso, o SYL ganhou o poder na década de 60 e tentou implantar medidas socializantes na economia (no melhor estilo Venezuela) com resultados ruins. O crescimento dos 15 anos anteriores estacou e até regrediu. Quanto mais os políticos tentavam controlar a economia, menos ela funcionava e mais era necessário que eles controlassem ela mais. Sem resultados. Nas eleições do final da década, o povo em peso votou nos opositores do SYL - agora sim, um partido com ideais que tendiam ao socialismo - e o partido acusou fraude nas eleições.


Revolucionários do mundo, uni-vos!

Como um partido que estava no poder poderia ser vítima de fraude não sabemos, mas em 1969 o presidente eleito é assassinado e um período de caos rapidamente é parado pelos militares, que implantam um regime de socialismo islâmico (!!!!!) no país e se aliando oficialmente à URSS, China e outros sucessos marxistas. O governo islâmico-socialista inicialmente teve grandes sucessos, por exemplo, criando o idioma somali a ser ensinado nas escolas ao invés dos idiomas dos colonizadores. A economia planificada também permitiu um rápido desenvolvimento do país. Foi a superioridade econômica do socialismo e não os empréstimos soviéticos e chineses que ajudaram nesse crescimento!

Fim da Parte I - Ficou maior do que pensei, peço desculpas pelo Wall of Text.
Esse topico eh bom. Vou tentar de lembrar para voltar e ler mais.

Uma colaboração.

Anarquia na Somália


No início deste ano, a rede estatal inglesa BBC publicou uma série de artigos celebrando os 20 anos da queda do estado na Somália. Embora os artigos expressassem a típica repulsa ao termo "anarquia", a série foi surpreendentemente equilibrada para um veículo da grande mídia tradicional. Desde a queda do estado, a Somália inegavelmente progrediu de acordo com vários critérios, apesar (ou, alguns diriam, por causa) da ausência de um governo central forte.

Economistas familiares com a tradição do anarquismo de livre mercado levaram a análise ainda mais longe, argumentando persuasivamente que a Somália está melhor sem o estado do que quando tinha um. A desdenhosa resposta estatista padrão — "Se vocês gostam tanto de anarquia, por que não se mudam para a Somália?" — é típica de quem não entende a teoria anarcocapitalista. O anarquista de livre mercado não afirma que a ausência de um estado é condição suficiente para a bem-aventurança. Antes, esse livre-mercadista afirma que, por mais próspera e cumpridora das leis que seja uma sociedade, acrescentar a este arranjo uma instituição que pratica o roubo e a violência organizada irá apenas piorar as coisas.

A BBC repercute os 20 anos de anarquia

Como dito inicialmente, o tratamento dado pela BBC à questão somali foi notavelmente equilibrado. Um dos artigos começa dizendo,

O senso comum afirma que segurança e estabilidade são as precondições necessárias para o desenvolvimento econômico.​
Desde 26 de janeiro de 1991, a maior parte da Somália não tem nem um nem outro; entretanto, a economia não apenas tem se mantido resiliente, como também alguns setores apresentaram um crescimento extraordinário.​

Em particular, a indústria de telecomunicações expandiu-se acentuadamente:

O especialista em telecomunicações somali Ahmed Farah diz que a primeira antena de telefonia celular foi erguida na Somália em 1994, e hoje é possível fazer ligações via celular de qualquer lugar do país.​
Há nove operadoras disponíveis e elas oferecem uma ampla variedade de serviços, de mensagens de texto a acesso à internet.​

Não foi apenas a indústria de telecomunicações que se expandiu. Um outro artigoda série esquematiza as melhorias ocorridas em alguns do principais índices ao longo dos últimos 20 anos de (relativa) anarquia:

Visualizar anexo 1547645500989.png

Exceto pela queda na taxa de natalidade (que é algo ambíguo) e pela queda no acesso a água potável (que é definitivamente algo ruim), os números acima demonstram um incrível progresso em várias frentes. Ouso dizer que se uma intervenção da ONU ou do Banco Mundial em algum país africano totalmente controlado pelo estado tivesse gerado os resultados acima, tal feito seria trombeteado e glorificado a plenos pulmões e com incessantes propagandas. (Para evitar confusão: grupos de ajuda internacionais estão atualmente trabalhando na Somália, e eles podem ser parcialmente responsáveis pelas melhorias ilustradas na tabela acima).

A BBC anseia por um governo perfeito

Não obstante o inegável progresso, o primeiro artigo da BBC lamenta a situação anárquica:

Por um lado, podemos nos maravilhar com o fato de que os empreendimentos continuam na Somália; por outro, é fato que as coisas poderiam estar muito melhores.​
A ausência de tributação e de regulamentações pode significar uma certa liberdade contra interferências. Porém, os empreendedores têm de pagar empresas de segurança para garantir a proteção de seus bens, e têm de remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio.​
Essa situação arriscada não desestimula todos os investimentos, porém estes seriam muito maiores caso existisse uma autoridade estável.​
[O especialista em telecomunicações] Ahmed Farah crê que as operadoras de telefonia celular gostariam de ideia de um governo efetivo.​
"Elas teriam segurança, teriam estabilidade e poderiam operar harmoniosamente", diz o especialista em telecomunicações.​
"Portanto, sem nenhuma dúvida, a indústria de telecomunicações da Somália precisa de um governo".​
Porém, com o atual governo somali [que controla somente algumas poucas áreas importantes da capital Mogadíscio], que é respaldado pela ONU, não é possível ter nenhuma ideia de quando este dia virá.​

O senhor Farah e o laudatório repórter da BBC cometem nesse ponto a falácia do Nirvana, a qual compara coisas reais a alternativas irrealistas e idealizadas. No caso, ambos contrastam um imperfeito resultado de mercado no mundo real com um idealizado resultado que seria produzido por um governo benevolente que só existe nos livros-texto. A realidade é que, mesmo que uma única organização consiga suprimir todos os seus rivais e conquiste a soberania sobre o território somali (organização essa chamada estado), os empreendedores ainda assim terão de "remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio".

Particularmente cômica é a reclamação de que os empreendedores atualmente têm de pagar empresas de segurança privadas para assegurar a proteção de seus bens. Ora, uma polícia e um sistema judiciário estatais não funcionarão à base de gorjetas — ambos também terão de ser financiados, só que por meio da tributação involuntária. Assim como ocorre com qualquer monopólio, o fornecimento estatal de um "sistema de justiça" será muito mais caro — tudo o mais constante — do que esse mesmo serviço sendo fornecido por meio de agências privadas e concorrentes.

Lutando pela soberania

Farah e outros defensores de um estado central podem retorquir dizendo que, no atual arranjo, os custos de segurança são particularmente altos para os empreendedores somalis porque há uma constante luta entre diversas facções militares rivais ("os guerrilheiros") que estão tentando assumir e controlar o governo. Isso é verdade, mas essa observação não prova aquilo que Farah pensa. Farah e outros estatistas acreditam que é inevitável que grupos guerrilheiros briguem violentamente para adquiri o controle da nação, e que a paz doméstica só será conquistada quando um grupo (ou coalizão) conseguir sobrepujar todos os outros e, com isso, assumir o controle total. Esta é a lógica que diz que o estabelecimento de um governo (supostamente) levará a menores gastos com segurança.

Há dois grandes problemas com essa visão. Primeiro, alguns afirmam que essas milícias somalis brigam entre si de maneira tão cruel justamente por causa da intromissão de ocidentais que insistem em tentar impor um governo. Em outras palavras, os vários clãs poderiam estar dispostos a coexistirem de maneira relativamente pacífica, sabendo que há um equilíbrio de poder e que nenhum grupo representa uma grande ameaça. Porém, quando a ONU entra em cena com seu dinheiro e suas armas, e tenta colocar um grupo acima dos outros, as facções somalis excluídas partem para o ataque. É uma questão de sobrevivência.

O outro problema com essa típica argumentação pró-estado — a saber, que grupos rivais entrarão em guerra civil até que um deles atinja uma óbvia superioridade sobre os outros — é que ela é exageradamente simplista e ignora a realidade. Afinal, se não é possível haver um equilíbrio de poder entre os pequenos clãs da Somália, então como pode haver um em toda a Europa? Ou, mais ainda, em todo o mundo?

Em outras palavras, para ser consistente, Farah e outros que clamam pelo estabelecimento de um governo na Somália — com o intuito de acabar com a guerra civil — deveriam também clamar pela criação de um governo central mundial para controlar todo o planeta. Caso contrário, as várias facções existentes no globo iriam lutar continuamente entre si (algo que, obviamente, elas fazem o tempo todo).

Conclusão

Em outro artigo, já respondi àquela genérica objeção ao anarquismo, que alega, que em uma sociedade sem estado, os déspotas assumiriam o controle. Particularmente sobre a Somália, recomendo o fantástico trabalho de Ben Powell et al. analisando a Somália antes e depois de sua transição para uma sociedade sem estado, e também comparando seu destino ao destino de outras similares nações africanas. A conclusão é que — obviamente — a Somália sem estado não é nenhum paraíso, porém a ausência de um governo corrupto e brutal deu ao país uma vantagem não apenas em relação aos seus países vizinhos, como também em relação à própria Somália do passado.

A Somália conseguiu um notável progresso desde o colapso da brutal ditadura de Siad Barre em 1991. Se as pessoas dos países mais desenvolvidos do mundo desejam ajudar aquela região pobre, podemos certamente enviar dinheiro e até mesmo visitá-los para oferecer serviços médicos e outros tipos de assistência. Porém, se o Ocidente continuar tentando impor sobre os sitiados somalis a "dádiva" de um outro estado, a resposta apropriada deles deveria ser "Caiam fora já!"

https://mises.org.br/Article.aspx?id=1031
 

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Anarquia na Somália


No início deste ano, a rede estatal inglesa BBC publicou uma série de artigos celebrando os 20 anos da queda do estado na Somália. Embora os artigos expressassem a típica repulsa ao termo "anarquia", a série foi surpreendentemente equilibrada para um veículo da grande mídia tradicional. Desde a queda do estado, a Somália inegavelmente progrediu de acordo com vários critérios, apesar (ou, alguns diriam, por causa) da ausência de um governo central forte.

Economistas familiares com a tradição do anarquismo de livre mercado levaram a análise ainda mais longe, argumentando persuasivamente que a Somália está melhor sem o estado do que quando tinha um. A desdenhosa resposta estatista padrão — "Se vocês gostam tanto de anarquia, por que não se mudam para a Somália?" — é típica de quem não entende a teoria anarcocapitalista. O anarquista de livre mercado não afirma que a ausência de um estado é condição suficiente para a bem-aventurança. Antes, esse livre-mercadista afirma que, por mais próspera e cumpridora das leis que seja uma sociedade, acrescentar a este arranjo uma instituição que pratica o roubo e a violência organizada irá apenas piorar as coisas.

A BBC repercute os 20 anos de anarquia

Como dito inicialmente, o tratamento dado pela BBC à questão somali foi notavelmente equilibrado. Um dos artigos começa dizendo,

O senso comum afirma que segurança e estabilidade são as precondições necessárias para o desenvolvimento econômico.​
Desde 26 de janeiro de 1991, a maior parte da Somália não tem nem um nem outro; entretanto, a economia não apenas tem se mantido resiliente, como também alguns setores apresentaram um crescimento extraordinário.​

Em particular, a indústria de telecomunicações expandiu-se acentuadamente:

O especialista em telecomunicações somali Ahmed Farah diz que a primeira antena de telefonia celular foi erguida na Somália em 1994, e hoje é possível fazer ligações via celular de qualquer lugar do país.​
Há nove operadoras disponíveis e elas oferecem uma ampla variedade de serviços, de mensagens de texto a acesso à internet.​

Não foi apenas a indústria de telecomunicações que se expandiu. Um outro artigoda série esquematiza as melhorias ocorridas em alguns do principais índices ao longo dos últimos 20 anos de (relativa) anarquia:

Visualizar anexo 61656

Exceto pela queda na taxa de natalidade (que é algo ambíguo) e pela queda no acesso a água potável (que é definitivamente algo ruim), os números acima demonstram um incrível progresso em várias frentes. Ouso dizer que se uma intervenção da ONU ou do Banco Mundial em algum país africano totalmente controlado pelo estado tivesse gerado os resultados acima, tal feito seria trombeteado e glorificado a plenos pulmões e com incessantes propagandas. (Para evitar confusão: grupos de ajuda internacionais estão atualmente trabalhando na Somália, e eles podem ser parcialmente responsáveis pelas melhorias ilustradas na tabela acima).

A BBC anseia por um governo perfeito

Não obstante o inegável progresso, o primeiro artigo da BBC lamenta a situação anárquica:

Por um lado, podemos nos maravilhar com o fato de que os empreendimentos continuam na Somália; por outro, é fato que as coisas poderiam estar muito melhores.​
A ausência de tributação e de regulamentações pode significar uma certa liberdade contra interferências. Porém, os empreendedores têm de pagar empresas de segurança para garantir a proteção de seus bens, e têm de remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio.​
Essa situação arriscada não desestimula todos os investimentos, porém estes seriam muito maiores caso existisse uma autoridade estável.​
[O especialista em telecomunicações] Ahmed Farah crê que as operadoras de telefonia celular gostariam de ideia de um governo efetivo.​
"Elas teriam segurança, teriam estabilidade e poderiam operar harmoniosamente", diz o especialista em telecomunicações.​
"Portanto, sem nenhuma dúvida, a indústria de telecomunicações da Somália precisa de um governo".​
Porém, com o atual governo somali [que controla somente algumas poucas áreas importantes da capital Mogadíscio], que é respaldado pela ONU, não é possível ter nenhuma ideia de quando este dia virá.​

O senhor Farah e o laudatório repórter da BBC cometem nesse ponto a falácia do Nirvana, a qual compara coisas reais a alternativas irrealistas e idealizadas. No caso, ambos contrastam um imperfeito resultado de mercado no mundo real com um idealizado resultado que seria produzido por um governo benevolente que só existe nos livros-texto. A realidade é que, mesmo que uma única organização consiga suprimir todos os seus rivais e conquiste a soberania sobre o território somali (organização essa chamada estado), os empreendedores ainda assim terão de "remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio".

Particularmente cômica é a reclamação de que os empreendedores atualmente têm de pagar empresas de segurança privadas para assegurar a proteção de seus bens. Ora, uma polícia e um sistema judiciário estatais não funcionarão à base de gorjetas — ambos também terão de ser financiados, só que por meio da tributação involuntária. Assim como ocorre com qualquer monopólio, o fornecimento estatal de um "sistema de justiça" será muito mais caro — tudo o mais constante — do que esse mesmo serviço sendo fornecido por meio de agências privadas e concorrentes.

Lutando pela soberania

Farah e outros defensores de um estado central podem retorquir dizendo que, no atual arranjo, os custos de segurança são particularmente altos para os empreendedores somalis porque há uma constante luta entre diversas facções militares rivais ("os guerrilheiros") que estão tentando assumir e controlar o governo. Isso é verdade, mas essa observação não prova aquilo que Farah pensa. Farah e outros estatistas acreditam que é inevitável que grupos guerrilheiros briguem violentamente para adquiri o controle da nação, e que a paz doméstica só será conquistada quando um grupo (ou coalizão) conseguir sobrepujar todos os outros e, com isso, assumir o controle total. Esta é a lógica que diz que o estabelecimento de um governo (supostamente) levará a menores gastos com segurança.

Há dois grandes problemas com essa visão. Primeiro, alguns afirmam que essas milícias somalis brigam entre si de maneira tão cruel justamente por causa da intromissão de ocidentais que insistem em tentar impor um governo. Em outras palavras, os vários clãs poderiam estar dispostos a coexistirem de maneira relativamente pacífica, sabendo que há um equilíbrio de poder e que nenhum grupo representa uma grande ameaça. Porém, quando a ONU entra em cena com seu dinheiro e suas armas, e tenta colocar um grupo acima dos outros, as facções somalis excluídas partem para o ataque. É uma questão de sobrevivência.

O outro problema com essa típica argumentação pró-estado — a saber, que grupos rivais entrarão em guerra civil até que um deles atinja uma óbvia superioridade sobre os outros — é que ela é exageradamente simplista e ignora a realidade. Afinal, se não é possível haver um equilíbrio de poder entre os pequenos clãs da Somália, então como pode haver um em toda a Europa? Ou, mais ainda, em todo o mundo?

Em outras palavras, para ser consistente, Farah e outros que clamam pelo estabelecimento de um governo na Somália — com o intuito de acabar com a guerra civil — deveriam também clamar pela criação de um governo central mundial para controlar todo o planeta. Caso contrário, as várias facções existentes no globo iriam lutar continuamente entre si (algo que, obviamente, elas fazem o tempo todo).

Conclusão

Em outro artigo, já respondi àquela genérica objeção ao anarquismo, que alega, que em uma sociedade sem estado, os déspotas assumiriam o controle. Particularmente sobre a Somália, recomendo o fantástico trabalho de Ben Powell et al. analisando a Somália antes e depois de sua transição para uma sociedade sem estado, e também comparando seu destino ao destino de outras similares nações africanas. A conclusão é que — obviamente — a Somália sem estado não é nenhum paraíso, porém a ausência de um governo corrupto e brutal deu ao país uma vantagem não apenas em relação aos seus países vizinhos, como também em relação à própria Somália do passado.

A Somália conseguiu um notável progresso desde o colapso da brutal ditadura de Siad Barre em 1991. Se as pessoas dos países mais desenvolvidos do mundo desejam ajudar aquela região pobre, podemos certamente enviar dinheiro e até mesmo visitá-los para oferecer serviços médicos e outros tipos de assistência. Porém, se o Ocidente continuar tentando impor sobre os sitiados somalis a "dádiva" de um outro estado, a resposta apropriada deles deveria ser "Caiam fora já!"

https://mises.org.br/Article.aspx?id=1031
Esse topico eh bom. Vou tentar de lembrar para voltar e ler mais.

Uma colaboração.

Anarquia na Somália


No início deste ano, a rede estatal inglesa BBC publicou uma série de artigos celebrando os 20 anos da queda do estado na Somália. Embora os artigos expressassem a típica repulsa ao termo "anarquia", a série foi surpreendentemente equilibrada para um veículo da grande mídia tradicional. Desde a queda do estado, a Somália inegavelmente progrediu de acordo com vários critérios, apesar (ou, alguns diriam, por causa) da ausência de um governo central forte.

Economistas familiares com a tradição do anarquismo de livre mercado levaram a análise ainda mais longe, argumentando persuasivamente que a Somália está melhor sem o estado do que quando tinha um. A desdenhosa resposta estatista padrão — "Se vocês gostam tanto de anarquia, por que não se mudam para a Somália?" — é típica de quem não entende a teoria anarcocapitalista. O anarquista de livre mercado não afirma que a ausência de um estado é condição suficiente para a bem-aventurança. Antes, esse livre-mercadista afirma que, por mais próspera e cumpridora das leis que seja uma sociedade, acrescentar a este arranjo uma instituição que pratica o roubo e a violência organizada irá apenas piorar as coisas.

A BBC repercute os 20 anos de anarquia

Como dito inicialmente, o tratamento dado pela BBC à questão somali foi notavelmente equilibrado. Um dos artigos começa dizendo,

O senso comum afirma que segurança e estabilidade são as precondições necessárias para o desenvolvimento econômico.​
Desde 26 de janeiro de 1991, a maior parte da Somália não tem nem um nem outro; entretanto, a economia não apenas tem se mantido resiliente, como também alguns setores apresentaram um crescimento extraordinário.​

Em particular, a indústria de telecomunicações expandiu-se acentuadamente:

O especialista em telecomunicações somali Ahmed Farah diz que a primeira antena de telefonia celular foi erguida na Somália em 1994, e hoje é possível fazer ligações via celular de qualquer lugar do país.​
Há nove operadoras disponíveis e elas oferecem uma ampla variedade de serviços, de mensagens de texto a acesso à internet.​

Não foi apenas a indústria de telecomunicações que se expandiu. Um outro artigoda série esquematiza as melhorias ocorridas em alguns do principais índices ao longo dos últimos 20 anos de (relativa) anarquia:

Visualizar anexo 61656

Exceto pela queda na taxa de natalidade (que é algo ambíguo) e pela queda no acesso a água potável (que é definitivamente algo ruim), os números acima demonstram um incrível progresso em várias frentes. Ouso dizer que se uma intervenção da ONU ou do Banco Mundial em algum país africano totalmente controlado pelo estado tivesse gerado os resultados acima, tal feito seria trombeteado e glorificado a plenos pulmões e com incessantes propagandas. (Para evitar confusão: grupos de ajuda internacionais estão atualmente trabalhando na Somália, e eles podem ser parcialmente responsáveis pelas melhorias ilustradas na tabela acima).

A BBC anseia por um governo perfeito

Não obstante o inegável progresso, o primeiro artigo da BBC lamenta a situação anárquica:

Por um lado, podemos nos maravilhar com o fato de que os empreendimentos continuam na Somália; por outro, é fato que as coisas poderiam estar muito melhores.​
A ausência de tributação e de regulamentações pode significar uma certa liberdade contra interferências. Porém, os empreendedores têm de pagar empresas de segurança para garantir a proteção de seus bens, e têm de remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio.​
Essa situação arriscada não desestimula todos os investimentos, porém estes seriam muito maiores caso existisse uma autoridade estável.​
[O especialista em telecomunicações] Ahmed Farah crê que as operadoras de telefonia celular gostariam de ideia de um governo efetivo.​
"Elas teriam segurança, teriam estabilidade e poderiam operar harmoniosamente", diz o especialista em telecomunicações.​
"Portanto, sem nenhuma dúvida, a indústria de telecomunicações da Somália precisa de um governo".​
Porém, com o atual governo somali [que controla somente algumas poucas áreas importantes da capital Mogadíscio], que é respaldado pela ONU, não é possível ter nenhuma ideia de quando este dia virá.​

O senhor Farah e o laudatório repórter da BBC cometem nesse ponto a falácia do Nirvana, a qual compara coisas reais a alternativas irrealistas e idealizadas. No caso, ambos contrastam um imperfeito resultado de mercado no mundo real com um idealizado resultado que seria produzido por um governo benevolente que só existe nos livros-texto. A realidade é que, mesmo que uma única organização consiga suprimir todos os seus rivais e conquiste a soberania sobre o território somali (organização essa chamada estado), os empreendedores ainda assim terão de "remunerar diferentes facções caso queiram fazer qualquer tipo de comércio".

Particularmente cômica é a reclamação de que os empreendedores atualmente têm de pagar empresas de segurança privadas para assegurar a proteção de seus bens. Ora, uma polícia e um sistema judiciário estatais não funcionarão à base de gorjetas — ambos também terão de ser financiados, só que por meio da tributação involuntária. Assim como ocorre com qualquer monopólio, o fornecimento estatal de um "sistema de justiça" será muito mais caro — tudo o mais constante — do que esse mesmo serviço sendo fornecido por meio de agências privadas e concorrentes.

Lutando pela soberania

Farah e outros defensores de um estado central podem retorquir dizendo que, no atual arranjo, os custos de segurança são particularmente altos para os empreendedores somalis porque há uma constante luta entre diversas facções militares rivais ("os guerrilheiros") que estão tentando assumir e controlar o governo. Isso é verdade, mas essa observação não prova aquilo que Farah pensa. Farah e outros estatistas acreditam que é inevitável que grupos guerrilheiros briguem violentamente para adquiri o controle da nação, e que a paz doméstica só será conquistada quando um grupo (ou coalizão) conseguir sobrepujar todos os outros e, com isso, assumir o controle total. Esta é a lógica que diz que o estabelecimento de um governo (supostamente) levará a menores gastos com segurança.

Há dois grandes problemas com essa visão. Primeiro, alguns afirmam que essas milícias somalis brigam entre si de maneira tão cruel justamente por causa da intromissão de ocidentais que insistem em tentar impor um governo. Em outras palavras, os vários clãs poderiam estar dispostos a coexistirem de maneira relativamente pacífica, sabendo que há um equilíbrio de poder e que nenhum grupo representa uma grande ameaça. Porém, quando a ONU entra em cena com seu dinheiro e suas armas, e tenta colocar um grupo acima dos outros, as facções somalis excluídas partem para o ataque. É uma questão de sobrevivência.

O outro problema com essa típica argumentação pró-estado — a saber, que grupos rivais entrarão em guerra civil até que um deles atinja uma óbvia superioridade sobre os outros — é que ela é exageradamente simplista e ignora a realidade. Afinal, se não é possível haver um equilíbrio de poder entre os pequenos clãs da Somália, então como pode haver um em toda a Europa? Ou, mais ainda, em todo o mundo?

Em outras palavras, para ser consistente, Farah e outros que clamam pelo estabelecimento de um governo na Somália — com o intuito de acabar com a guerra civil — deveriam também clamar pela criação de um governo central mundial para controlar todo o planeta. Caso contrário, as várias facções existentes no globo iriam lutar continuamente entre si (algo que, obviamente, elas fazem o tempo todo).

Conclusão

Em outro artigo, já respondi àquela genérica objeção ao anarquismo, que alega, que em uma sociedade sem estado, os déspotas assumiriam o controle. Particularmente sobre a Somália, recomendo o fantástico trabalho de Ben Powell et al. analisando a Somália antes e depois de sua transição para uma sociedade sem estado, e também comparando seu destino ao destino de outras similares nações africanas. A conclusão é que — obviamente — a Somália sem estado não é nenhum paraíso, porém a ausência de um governo corrupto e brutal deu ao país uma vantagem não apenas em relação aos seus países vizinhos, como também em relação à própria Somália do passado.

A Somália conseguiu um notável progresso desde o colapso da brutal ditadura de Siad Barre em 1991. Se as pessoas dos países mais desenvolvidos do mundo desejam ajudar aquela região pobre, podemos certamente enviar dinheiro e até mesmo visitá-los para oferecer serviços médicos e outros tipos de assistência. Porém, se o Ocidente continuar tentando impor sobre os sitiados somalis a "dádiva" de um outro estado, a resposta apropriada deles deveria ser "Caiam fora já!"

https://mises.org.br/Article.aspx?id=1031
Eu não entendo a teoria anarco-capitalista.
Por que deveríamos enviar dinheiro ou visita-los para oferecer serviços médicos?
Esse dinheiro ira para quem?
Quem garantiram a segurança desse médicos?
Por que os anaco-capitalistas não vão todos pra Somalia?
 

Cafetão Chinês

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Eu não entendo a teoria anarco-capitalista.
Por que deveríamos enviar dinheiro ou visita-los para oferecer serviços médicos?
Esse dinheiro ira para quem?
Quem garantiram a segurança desse médicos?
Por que os anaco-capitalistas não vão todos pra Somalia?
1 - Caridade, ninguém é obrigado a ajudar ninguém. É uma ação moral.
2 - Porque a Somália não é anarcocapitalista. E ainda assim porque quem deve se retirar da minha propriedade privada é o agressor. No caso o estado e quem me toma impostos a força.
 

Baralho

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Pode parecer "a priori", mas o anarco-capitalismo não é "simploriamente", um equivalente do anarco-comunismo no lado direito do ideário político.

Pois partem de concepções completamente distintas de direito e propriedade.
 

Cafetão Chinês

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Pode parecer "a priori", mas o anarco-capitalismo não é "simploriamente", um equivalente do anarco-comunismo no lado direito do ideário político.

Pois partem de concepções completamente distintas de direito e propriedade.
Pois é, isso causa muita confusão.
O anarcocapitalismo é simplesmente uma vertente mais radical do liberalismo clássico e do minarquismo.

Confesso que um dos culpados por isso é o próprio Rothbard, o principal teórico do anarcocapitalismo.
Em seus livros ele chamava de libertarianismo, mas em palestras passou a usar o termo anarcocapitalismo, que pegou.

Eu diria que um termo mais correto, seria: arquia de mercado. E não uma anarquia.
Pois existe tanto a aplicação da lei de propriedade quanto a coerção, e a ética libertária de forma universalizada nessa sociedade livre.

O poder de coerção é simplesmente descentralizado, mas ele existe.
 

Beren_

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Eu não entendo a teoria anarco-capitalista.
Por que deveríamos enviar dinheiro ou visita-los para oferecer serviços médicos?
Esse dinheiro ira para quem?
Quem garantiram a segurança desse médicos?
Por que os anaco-capitalistas não vão todos pra Somalia?
Entender ou não entender é uma questão puramente de estudar as premissas e as defesas. Ai entendendo, pode-se discordar com propriedade.

Libertarianismo é apenas a conclusão logica do liberalismo clássico e antigo conservadorismo estilo Ed Burke. O conservadorismo que entendia que conservar instituições era "conservar" instituições criadas pelas pessoas, as que são boas para as pessoas.
Já se sabiam á se tinha o entendimento, que o estado era ruim, mas muitos consideravam um "mal necessário" achando que ele deveria "atuar" em alguma area especifica. Divergindo somente de em quais seriam estas areas. Locke, Burke, Mises diversos filosofos e economistas ja entendiam o problema do estado, só que não conseguiram na época imaginar as areas que eles achavam que o estado deveria atuar sendo coberta por empresas.
O libertarianismo foi além, vai além pois ele põe de lado o utilitarismo,. o que parece mais fácil, simples, comodo e critica realmente que, se o estado é um MAL? Ele é mesmo necessário? E se é um mal, mesmo que necessário, é correto? Daí cria-se a ética libertária que parte de direitos naturais, de razão pura. Da critica de que se nós somos humanos e nascemos com certas caracteristicas inegáveis, é correto que outros possam agredir nossa natureza? Ou seja,é correto que possa-se violar nosso corpo, propriedade, liberdade, etc? (dá para resumir tudo em propriedade).
Muitos não entendem o anarco-capitalismo porque diferente do que estão acostumados, não se promete uma utopia, a solução de todos os problema, e sim a busca por uma sociedade mais correta. Aí quando voce fala para as pessoas "problemas sempre vão existir, mas num livre mercado a tendencia é que se encontrem mais soluções", elas não querem ouvir isso. Elas querem ouvir que um "Deus" na terra vai salvar a todos,cuidar da vidas delas, resolver seus problemas, basicamente mãe e pais eternos.
E sim, pela teoria economia, uma sociedade mais correta em suas leis, teria mais incentivos para se resolver os problemas e mais punições para os agressores. Não a palhaçada que é hoje com impunidade solta.
Ah sim eu estou sendo SUPER generico e não entrando realmente em defesas etica.
O anarco-capitalismo seria um sistema legal, que tenha a etica de propriedade, como "norte", como base para derivação das leis, do "pode" e "não pode". Principalmente do "não pode" pois leis anarco-capitalista são negativas e não positivas como temos hoje.


Quanto a "deve". Não "deve". Pode, se quiser.
Quem "garante" sua segurança hoje? Garanti significa 100% de CERTEZA de que nada ocorrerá. Ninguem garante isso. Porém, nada impede que os médicos, ONGs ou mesmo pessoas contrate segurança. Ou mesmo a população se estiver sendo beneficiada proteja.
A Cruz vermelha por entendimento internacional, não era atacada em guerras. Pois ela não distinguia lados, ajudava a todos.

Porque não ir para Somalia? No texto ele já fala sobre isso no começo. Ausência de governo PURAMENTE não significa progresso. A existência de um que com certeza significa piorar qualquer sistema existente. A propriedade que conquistei APESAR do roubo estatal, eu tenho direito de manter.
 
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Cafetão Chinês

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Entender ou não entender é uma questão puramente de estudar as premissas e as defesas. Ai entendendo, pode-se discordar com propriedade.

Libertarianismo é apenas a conclusão logica do liberalismo clássico e antigo conservadorismo estilo Ed Burke. O conservadorismo que entendia que conservar instituições era "conservar" instituições criadas pelas pessoas, as que são boas para as pessoas.
Já se sabiam á se tinha o entendimento, que o estado era ruim, mas muitos consideravam um "mal necessário" achando que ele deveria "atuar" em alguma area especifica. Divergindo somente de em quais seriam estas areas. Locke, Burke, Mises diversos filosofos e economistas ja entendiam o problema do estado, só que não conseguiram na época imaginar as areas que eles achavam que o estado deveria atuar sendo coberta por empresas.
O libertarianismo foi além, vai além pois ele põe de lado o utilitarismo,. o que parece mais fácil, simples, comodo e critica realmente que, se o estado é um MAL? Ele é mesmo necessário? E se é um mal, mesmo que necessário, é correto? Daí cria-se a ética libertária que parte de direitos naturais, de razão pura. Da critica de que se nós somos humanos e nascemos com certas caracteristicas inegáveis, é correto que outros possam agredir nossa natureza? Ou seja,é correto que possa-se violar nosso corpo, propriedade, liberdade, etc? (dá para resumir tudo em propriedade).
Muitos não entendem o anarco-capitalismo porque diferente do que estão acostumados, não se promete uma utopia, a solução de todos os problema, e sim a busca por uma sociedade mais correta. Aí quando voce fala para as pessoas "problemas sempre vão existir, mas num livre mercado a tendencia é que se encontrem mais soluções", elas não querem ouvir isso. Elas querem ouvir que um "Deus" na terra vai salvar a todos,cuidar da vidas delas, resolver seus problemas, basicamente mãe e pais eternos.
E sim, pela teoria economia, uma sociedade mais correta em suas leis, teria mais incentivos para se resolver os problemas e mais punições para os agressores. Não a palhaçada que é hoje com impunidade solta.
Ah sim eu estou sendo SUPER generico e não entrando realmente em defesas etica.
O anarco-capitalismo seria um sistema legal, que tenha a etica de propriedade, como "norte", como base para derivação das leis, do "pode" e "não pode". Principalmente do "não pode" pois leis anarco-capitalista são negativas e não positivas como temos hoje.


Quanto a "deve". Não "deve". Pode, se quiser.
Quem "garante" sua segurança hoje? Garanti significa 100% de CERTEZA de que nada ocorrerá. Ninguem garante isso. Porém, nada impede que os médicos, ONGs ou mesmo pessoas contrate segurança. Ou mesmo a população se estiver sendo beneficiada proteja.
A Cruz vermelha por entendimento internacional, não era atacada em guerras. Pois ela não distinguia lados, ajudava a todos.

Porque não ir para Somalia? No texto ele já fala sobre isso no começo. Ausência de governo PURAMENTE não significa progresso. A existência de um que com certeza significa piorar qualquer sistema existente. A propriedade que conquistei APESAR do roubo estatal, eu tenho direito de manter.
E o texto aborda algo muito interessante, ignorado por ele. Apesar da Somália não ser anarcocapitalista, ela melhorou e se desenvolveu em várias áreas (exceto uma), se comparada ao estado que existia antes.

A Somália tem hoje o melhor sistema de telecomunicações da África, que foi criado durante a época anárquica. Como o mercado passou a ser livre (sem um estado regulando e fechando o mercado para atrapalhar, como no Brasil) várias empresas de comunicações foram para lá ofertarem seus serviços, e isso fez com que a qualidade melhorasse devido a concorrência.
 

NÃOMEQUESTIONE

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Imagine só ver um samurai preto, automaticamente o oponente já deveria desistir achando ser um Oni pois nao estavam acostumados com pessoas de outras raças no Japão. Há estórias sobre os vikings que teriam chegado ao Japão e como tinham aparência diferente eram vermelhos e grandes logo eram tidos como demônios de outro mundo!
Tem mais detalhes desta histórias?
 

Beren_

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E o texto aborda algo muito interessante, ignorado por ele. Apesar da Somália não ser anarcocapitalista, ela melhorou e se desenvolveu em várias áreas (exceto uma), se comparada ao estado que existia antes.

A Somália tem hoje o melhor sistema de telecomunicações da África, que foi criado durante a época anárquica. Como o mercado passou a ser livre (sem um estado regulando e fechando o mercado para atrapalhar, como no Brasil) várias empresas de comunicações foram para lá ofertarem seus serviços, e isso fez com que a qualidade melhorasse devido a concorrência.
Eu to procurando um livro. Que indicaram uma vez, mas esqueci o titulo. Acho que eh "The Yellow Tree", só que esqueci titulo exato e autor. Sobre como em locais da Africa onde não existe educação basica "gratuita", pessoas cobram pequenos valores para ensinar outros. Como alfabetização até tarefas mais complexas. E funciona muito bem.
 

scharlie

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@Goris

Em primeiro lugar, gostaria de te parabenizar pelo tópico.

Em segundo lugar, se eu não estiver incomodando, gostaria que respondesse a algumas perguntas:

1) A divisão das fronteiras da África pelos europeus na Conferência de Berlim é considerada por muitos acadêmicos como a origem de grande parte dos conflitos étnicos no continente. Você concorda?

2) Acha que seria viável uma separação de povos, formando novos países homogêneos, de modo que tribos inimigas não tenham que viver em um mesmo território?

3) Como você vê a atual influência da China em vários países africanos? Alguns comparam com a colonização dos europeus.

4) No passado, a influência dos europeus e dos árabes de certa forma acabou sufocando as línguas e as religiões africanas. Você considera importante que os povos africanos tentem resgatar suas línguas e religiões?

5) África do Sul está um caos e muitos falam sobre a possibilidade de uma guerra civil. Você vê um futuro positivo para o país?

6) Você falou do resultado de governos de esquerda na Etiópia e na Somália... existem casos de governos conservadores em países africanos trazendo avanços?

7) O forte crescimento populacional africano é uma preocupação para o futuro? Projeções mostram que a população pode dobrar ou mesmo triplicar em questão de décadas...
 

Ronin Ogun

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Imagine só ver um samurai preto, automaticamente o oponente já deveria desistir achando ser um Oni pois nao estavam acostumados com pessoas de outras raças no Japão. Há estórias sobre os vikings que teriam chegado ao Japão e como tinham aparência diferente eram vermelhos e grandes logo eram tidos como demônios de outro mundo!
A história do samurai negro vai virar filme estrelado pelo Chadwick Boseman.
 

Goris

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@Goris

Em primeiro lugar, gostaria de te parabenizar pelo tópico.
Obrigado. Ainda tenho que escrever muita coisa, mas depois de me decepcionar um pouco (existe gente cujo objetivo é tumultuar tópicos assim, destruindo eles) acabei sempre deixando pra depois. Ainda tem muita coisa legal pra escrever - e principalmente pra eu pesquisar.

1) A divisão das fronteiras da África pelos europeus na Conferência de Berlim é considerada por muitos acadêmicos como a origem de grande parte dos conflitos étnicos no continente. Você concorda?
Não.

Eu já tinha um pensamento na cabeça antes de procurar ler um pouco (é bom relembrar o que se sabe) sobre a Partilha da África e o primeiro resultado da busca do Google já caiu aqui:

130 anos da partilha da África

O texto não nega que, segundo alguns historiadores a partilha da África gerou as crises étnicas que ora vemos no continente.

Mas no próprio texto, você pega "partes" que se juntar mostram algo diferente. Ao se separarem da metrópole, várias dessas colônias tiveram oportunidade de se reorganizar, mas a maioria absoluta seguiu os mesmos traçados coloniais. Segundo, você pega a contradição, uma parte do texto diz que "linhas de comércio antigas eram proibidas porque países surgiram onde antes não havia" e a parte que diz "Os traçados eram apenas no papel, sem real significância para os nativos" somado à parte que diz "Muitos dos traçados eram feitos sem que os europeus sequer chegassem no local".

É tipo, alguém lá em Maceió disse que sua cidade no Rio Grande do Sul foi dividida em duas, mas esse alguém não vai lá conferir e quando for, daqui 5 anos, vai passar lá, ver e voltar pra Maceió.

A gente tem que entender que nos anos 60 a 90 vivíamos na Guerra Fria, entre os comunistas de um lado, capitalistas de outro e um imenso emaranhado de países não alinhados que poderiam tender pra qualquer dos lados. Nessa guerra, o fator ideológico era tão importante quanto mísseis nucleares e cia. Basta ler sobre a chegada do Homem à Lua. 9 em cada 10 textos vão dizer que a corrida espacial era uma disputa entre EUA e URSS para mostrar qual sistema econômico era melhor. Pode não parecer mas populações inteiras poderiam ficar mais tentadas a um lado ou outro dizendo "Olha, o país tal chegou na Lua, o sistema econômico deles deve ser melhor...". Ou seja, tudo era propaganda. Até mostrar como era o modo de vida dos cidadãos (a gente teve muito acesso ao American Way, mas tbm havia um pequeno sistema que mostrava as maravilhas do comunismo) fazia você se sentir tentado a apoiar políticas capitalistas.

No Brasil, na esteira dessa guerra ideológica (ou guerra de narrativas) a gente tem "correções" na história oficial pendendo pra um lado e pra outro, mas com o tempo ela tendeu mais pro lado socialista. E nisso, versões tendenciosas iam surgindo, sendo repetidas, aumentadas, até casos como a versão da Guerra do Paraguai que foi criada nos anos 60 e ganhou peso nos anos 70 e 80 em que a Inglaterra manipulou o Brasil pra destruir o Paraguai, porque essa nação sul-americana era uma nação proto-socialista, com grande industrialização e que, por poder ser um concorrente ao imperialismo inglês, tinha de ser eliminado e o Brasil foi engando pela Inglaterra para fazer o trabalho sujo pro ela. Ainda que totalmente fantasiosa (tem tópicos e tópicos sobre o assunto) ela era "verdade" até fins dos anos 90 e só recentemente é aceita como lenda.

Da mesma forma, culpar não o colonialismo mas o capitalismo pelas mazelas da África é algo que se encaixa no espírito da época em que mais importante é atacar os inimigos que dizer a verdade.

Claro que uma divisão arbitrária causou e causa problemas étnicos. Mas tipo, imagina que existam brancos, negros, índios e asiáticos num país, vamos chamar ele de Brazil (com Z pra vermos que é um país ficítico) você diria que só pro colocar essas pessoas num mesmo país elas se matariam entre si de forma automática? Não, né.

Sabe uma coisa interessante que li enquanto pesquisava Somália, Etiópia, Angola, Uganda e cia é que eu percebi que os socialistas - sim, eles mesmos - não se furtavam a instilar conflitos étnicos em populações que pretendessem levar a uma revolução socialista. É sempre a estória de "Olha, os tutsis recebem mais apoio dos colonizadores, eles estão vivendo melhor que vocês porque roubaram o que era de vocês!" e isso gerava a insatisfação necessária para um levante, rebelião ou completa tomada do poder por grupos de interesse.

Acho que nas descrições dos conflitos entre Etiópia e Somália (ambos socialistas) tem um trecho em que cito essa interferência em países próximos para gerar instabilidade.



Além disso, muitos conflitos étnicos são, na verdade, conflitos religiosos. Tipo islâmicos contra cristãos, islâmicos contra animistas, não sei se tem cristãos versus animistas, mas deve ter tbm.

Pegando Ruanda por exemplo, se você olhar num mapa vai ver que Ruanda fica bem perto do meio do "Chifre da África", o mesmo lugar que eu citei nos textos sobre Somália e Etiópia. E bem abaixo de Uganda, outra nação socialista.

Uganda e seus conflitos étnicos (depois falo de Ruanda)

Olha a coincidência. Uganda meio que confirma a tese de que unir povos diferentes num único país é problema. Mas basicamente havia um imenso reino Ruganda, e vários reinos menores na região de Uganda. Havia conflitos lá, sérios, mas não eram - até onde li - conflitos étnicos. Após a descolonização, grupos de poder passaram a lutar entre si. Algo meio que normal na história de qualquer caso similar, América Latina inclusa (por exemplo, Bolívar queria uma gran américa latina, mas o país se fragmentou e temos hoje vários países pequenos no continente, muitos deles quase imediatamente entrando em guerra uns com os outros - e não havia fronteira artificial. Mas só meio que confirma, porque eis que surge ele, Idi Amin, salvador socialista do país. Opa... Olha a palava socialismo. O mesmo socialismo que destruiu Somália e Etiópia dá as caras em Uganda. Coincidência? Nem tanto. Logo após Idi Amin subir ao poder e socializar o país, os conflitos étnicos começaram.
Pois é. Curiosamente, você encontra essas exatas palavras "Imediatamente após Idi Amim chegar ao poder os conflitos étnicos começaram" na Wikipédia em ENG, mas não na mesma wikipédia em PT-BR.

Mas continuando, Idi Amin, da socialista Uganda instituiu perseguição étnica (é aquele lance, a etnia X apoia o socialismo e todas as bênçãos que ele traz, a etnia Y não é tão apoiadora assim. Então a culpa é da raça deles, vamos matar os FDPs. Isso levou milhares, centenas de milhares de pessoas à morte em conflitos étnicos ou a fugirem do país.

Ou seja, havia conflitos tribais, mas que se tornaram conflitos étnicos quando um ditador socialista chegou ao poder. Meio parecido com a Somália.

Nisso, vamos pra famosa Ruanda

Logo abaixo de Uganda, Ruanda era um país de colonização alemã. Havia apenas uma única etnia no país (o país com o maior massacre étnico do continente, só tinha uma etnia, olha a tese caindo por água) mas essa etnia se dividia em três sub-etnias. Duas dessas, Tutsis e Hutsis, eram indistinguíveis uma da outra e sua origem parece ser mais uma antiga divisão de classes que algo racial. Apesar disso, os tusis estavam mais identificados como minoria dominante os hutus como minoria dominada. Após a independência, os dominados hutus se rebelaram contra seus antigos senhores tutsis e começaram a matar a população tutsi. Sentiu um cheiro de Uganda no ar?

Idi Amin tinha interesse numa Ruanda menos poderosa (carece de citação)? Ou era só um cara legal? O fato é que após incentivar os conflitos etnicos no próprio país, ele recebeu, treinou e armou refugiados tutsis em Uganda. Refugiados que retornaram, anos depois, para tentar tomar o poder, numa grande invasão. O conflito durou até os anos 90, quando Idi Amin já não era ditador de Uganda. Nova coincidência, claro.

Mas infelizmente, o presidente do país, que conseguiu um cessar fogo entre as etnias e tentou chegar a um acordo de paz foi morto. Ele era um hutu e, apesar de muitas pessoas teorizarem que foi um grupo hutu descontente com a paz (há casos assim) que cometeu o assassinato, os hutus em peso culparam os tutsis e o tristemente famoso massacre de Ruanda, em que quase um milhão de pessoas foram mortas.

De novo, Ruanda possuía apenas uma etnia de verdade, mas essa única etnia se considerava duas. Não havia fronteira artificial forçando ninguém a morar com ninguém. E, no entanto, os conflitos surgiram causando milhões de mortes.

Isso pegando só um caso.

Minha opinião, pessoal, já que um caso desses é sempre complicado, é que as fronteiras artificiais criadas por Europeus não ajudaram, mas não são a principal causa de vários desses conflitos etnicos. Como podemos ver, o próprio socialismo tá envolvido em vários desses casos, seja apoiando grupos de um lado e do outro para poder tomar o poder, seja causando migrações em massa que desbalancearam as populações locais (assim como economia, alimentos, etc) e potencializaram essas lutas.

2) Acha que seria viável uma separação de povos, formando novos países homogêneos, de modo que tribos inimigas não tenham que viver em um mesmo território?
Sabe, Uganda era um desses países em que se colocou vários povos num mesmo bloco e deu muito errado, mas com conflitos não etnicos entre grupos rivais, mas conflitos políticos que geraram a morte de milhares de inocentes.

Ruanda é o oposto, uma única etnia que decidiu se considerar duas por motivos particulares próprios (ainda que com "apoio" europeu) e que se envolveu no maior conflito étnico da história recente com quase 1.000.000 de mortos e incontaveis milhares de feridos e fugitivos.

Ou seja, dois casos diferentes com o mesmos terríveis resultados.

Eu realmente tenho muito que estudar sobre a história da África pra poder te dar a resposta definitiva. Mas eu creio que não era o fator principal, apenas um de vários.

Então, dividir países de acordo com etnias não seria a solução. Simplesmente se hoje a Ruanda do Leste fosse só pros Hutus e a Ruanda do Oeste dos Tutsis, o que impediria que, no azar de uma seca na Ruanda do Oeste os tutsis não invadirem a Ruanda do Leste? E vice-versa? O imbróglio da África não é simples igual muitos podem achar que é.

3) Como você vê a atual influência da China em vários países africanos? Alguns comparam com a colonização dos europeus.
Puxa, fico te devendo muito uma resposta. Sei que a China tá investindo pesado lá, com grandes interesses. Inclusive comprando políticos para ter seus interesses respeitados.
Mas alguns casos você só consegue dizer com certeza com anos e anos de distância.

4) No passado, a influência dos europeus e dos árabes de certa forma acabou sufocando as línguas e as religiões africanas. Você considera importante que os povos africanos tentem resgatar suas línguas e religiões?
Não.

Pelo que vira e mexe eu leio, africanos tem uma tal diversidade que muitos nativos falam várias linguas e dialetos. Isso é legal, você pode continuar mantendo seu idioma e ainda aprende outros, fica mais passível de falar várias linguas, aprender novos conceitos, etc. Mas se isso deixa de ser algo natural e começa a virar uma política deliberada "Oh, vou proteger meu idioma, vou proibir termos em outras linguas" e isso pode ser o prenúncio, daqui várias decadas, de novos problemas. Os hutus e tutsis não são de etnias diferentes, mas se enxergavam como tais e inclusive seus documentos de identificação tinham tutsi e hutu. Imagina um continente em que as pessoas se matam por terem etnias diferentes e tbm se matam por terem a mesma etnia. Logo estariam se matando por terem a mesma etnia mas falarem com um dialeto diferente.

Obvio que não tenho poder para isso, mas prefiro deixar uma evolução natural surgir, novos idiomas substituírem os antigos e algo melhor surgir daí. Vale lembrar que até 1860 o Brasil não era um país, mas um império formado por vários países diferentes, nosso povo só passou a se considerar um único povo mais ou menos 150 anos atrás. Hoje somos um só país - e olha as tretas entre estados até hoje - e torço pra uma mesma evolução surgir por lá.

Quanto à religião, mesma situação. Se os animistas, os cristãos e os islâmicos puderem viver em paz, que seja. Movimentos para diminuir essa ou aquela religião são fontes de morticídios imensos por lá. Não tem como defender qualquer grupo que diga que tem que voltar uma religião tal porque sim.

5) África do Sul está um caos e muitos falam sobre a possibilidade de uma guerra civil. Você vê um futuro positivo para o país?
Não.

Muito ódio acumulado (seja com ou sem razão) faz as pessoas tomarem todo tipo de péssima atitude que só gera péssimos resultados, que só geram mais ódio acumulado e o círculo continua.

Nao acompanho boas atitudes nesse sentido no país, então por alto acho que ainda vai demorar pra piorar tanto que só possa melhorar.


6) Você falou do resultado de governos de esquerda na Etiópia e na Somália... existem casos de governos conservadores em países africanos trazendo avanços?
Conservadores, não.
Mas alguns poucos países têm tido boas ações econômicas e melhorado imensamente.

Maurício é o único país do continente que tem possibilidades de se tornar desenvolvido.

A própria Ruanda, pelo que li, depois dos massacres e da imensa ação estrangeira, tem se desenvolvido.



7) O forte crescimento populacional africano é uma preocupação para o futuro? Projeções mostram que a população pode dobrar ou mesmo triplicar em questão de décadas...
Sempre é uma preocupação.

O grande problema não é o crescimento populacional em si, mas o fechamento do continente em ditaduras e democracias semi ditatoriais que ainda acreditam em formas políticas e econômicas que arrasaram eles mesmos e outros países.

É tipo, deu errado aqui, aqui, aqui e ali. Mas eu vou continuar fazendo igual porque uma hora dá certo. Aqui não falo de socialismo (já disse que sou meio tendencioso contra o modelo), mas de tudo.

A África parece ainda pior que a América Latina em escolher sempre as piores opções econômicas.

Se seu povo cresce e sua economia cresce (veja o caso da China) você cresce. Mas se seu povo cresce e sua economia continua estagnada (ou pior, entra em decadência) fome, guerra e conflitos.

De repente a China pode ser algo de bom para o continente. Não por bondade, mas por lógica de consumo.
 
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scharlie

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Muito obrigado pelas respostas.

Não sabia que Tutsis e Hutus eram basicamente o mesmo povo. Pensava que havia diferenças culturais profundas entre eles.

No Brasil, na esteira dessa guerra ideológica (ou guerra de narrativas) a gente tem "correções" na história oficial pendendo pra um lado e pra outro, mas com o tempo ela tendeu mais pro lado socialista. E nisso, versões tendenciosas iam surgindo, sendo repetidas, aumentadas, até casos como a versão da Guerra do Paraguai que foi criada nos anos 60 e ganhou peso nos anos 70 e 80 em que a Inglaterra manipulou o Brasil pra destruir o Paraguai, porque essa nação sul-americana era uma nação proto-socialista, com grande industrialização e que, por poder ser um concorrente ao imperialismo inglês, tinha de ser eliminado e o Brasil foi engando pela Inglaterra para fazer o trabalho sujo pro ela. Ainda que totalmente fantasiosa (tem tópicos e tópicos sobre o assunto) ela era "verdade" até fins dos anos 90 e só recentemente é aceita como lenda.
Tive um professor de História que ensinou essa visão de que a Inglaterra teria manipulado o Brasil no conflito com o Paraguai, e essa aula ocorreu quando fiz cursinho pré-vestibular em 2011. Esse professor era assumidamente socialista, mas na época não fiz essa associação ideológica, e entendi como uma forma de eliminar a culpa do Brasil, já que seria uma saída mais fácil justificar nossos erros e problemas transferindo a responsabilidade para outros países (Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos, dependendo da época analisada).
 

Moonglaive

Bam-bam-bam
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Tive um professor de História que ensinou essa visão de que a Inglaterra teria manipulado o Brasil no conflito com o Paraguai, e essa aula ocorreu quando fiz cursinho pré-vestibular em 2011. Esse professor era assumidamente socialista, mas na época não fiz essa associação ideológica, e entendi como uma forma de eliminar a culpa do Brasil, já que seria uma saída mais fácil justificar nossos erros e problemas transferindo a responsabilidade para outros países (Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos, dependendo da época analisada).
Não havia mto estudo sério sobre a guerra do paraguai antigamente tb. As pessoas tendem a esquecer que mestrado e PHD no Brasil é coisa recente. Fora umas ilhas de excelência não existia praticamente universidades ou faculdades no Brasil, por isso que na época estudar era vaga garantida pra emprego bom porque literalmente a falta era absurda e te diferenciava da maioria.

A unica versão que existia era a dada pelos historiadores dos institutos militares e era bem utópica.

Depois começaram a vir as primeiras obras questionando essa versão e começaram a vir algumas afirmações com poucas fontes pra corrobora-las, mtas vieram do Paraguai também nas primeiras tentativas de unir a historiografia do período com os 2 países. (dae vieram coisas Como a da inglaterra ser a mandante). O período da Ditadura militar e a extrema falta de documentos acessíveis. (Tudo lacrado como segredo de estado) não ajudavam a desmistificar os erros. Mas mesmo esses erros tiveram uma função de aprofundar os estudos pra corroborar as afirmações dos estudos.

Na década de 90, com muitos documentos liberados e historiadores como Francisco Doratioro ("Maldita guerra": 2002) que começaram a vir estudos +sérios e achando os detalhes.
A versão que temos hoje é de pelo menos 2009-2010. E ainda não está completa porque até hoje o Brasil se nega a liberar certos documentos, especificamente sobre o fim da guerra. O período de ocupação, tratados, etc.

Período Varga é outro período ainda cheio de buracos. Mtos documentos só foram liberados nessa década e ainda tão no processo de serem "mastigados" e interpretados dentro do contexto da época. O que pode vir ou não a levar a novidades ou ao menos nós fazer entender melhor porque decisão X foi tomada ao invés de decisão Y.
 
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abcdario

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1 - Caridade, ninguém é obrigado a ajudar ninguém. É uma ação moral.
2 - Porque a Somália não é anarcocapitalista. E ainda assim porque quem deve se retirar da minha propriedade privada é o agressor. No caso o estado e quem me toma impostos a força.
https://www.theguardian.com/technology/2018/oct/18/life-at-the-bottom-of-the-global-league-of-internet-access
É uma das nações menos conectadas do mundo, não sei se um bom exemplo não.
 

Goris

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Muito obrigado pelas respostas.

Não sabia que Tutsis e Hutus eram basicamente o mesmo povo. Pensava que havia diferenças culturais profundas entre eles.
Vou ser honesto, eu pensava igual você.
Foi só ontem, pesquisando sobre o país que descobri isso.

Mesma língua e mesma origem racial. Provavelmente as diferenças entre eles são pequenas e só perceptíveis a eles.

Como você disse, cultural (roupas e modo de agir diferentes) alguma diferença de idiomas (certa vez um colega brasileiro, descendente de alemães, do fórum Hangarnet, foi pra Alemanha. Apesar de etnicamente ele ser alemão, de falar alemão fluentemente, os alemães claramente o identificavam como estrangeiro, provavelmente a forma dele falar alemão, de se vestir e falar... Vai saber. Noutro caso, um branco baiano seria claramente visto como diferente se fosse viver no meio de brancos do Rio Grande do Sul)


Tive um professor de História que ensinou essa visão de que a Inglaterra teria manipulado o Brasil no conflito com o Paraguai, e essa aula ocorreu quando fiz cursinho pré-vestibular em 2011. Esse professor era assumidamente socialista, mas na época não fiz essa associação ideológica, e entendi como uma forma de eliminar a culpa do Brasil, já que seria uma saída mais fácil justificar nossos erros e problemas transferindo a responsabilidade para outros países (Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos, dependendo da época analisada).
Acho que entra nas duas coisas.

Você tira sua culpa (tudo de errado em nossa história é culpa de outro) e defende sua ideologia (esse outro foram os capitalistas).

Melhor se dois mundos.

No caso da Guerra do Paraguai, o agressor foi o Paraguai, que tinha um exército regular e planos de conquista reais. Tanto que no começo da guerra o Paraguai conquistou grandes vitórias contra os três países.

Foi nos anos 60, passados 100 anos da guerra, que no clima de revisionismo marxista da história, um historiador marxista veio com essa versão fantasiosa. Mas ela era tão legal naquele clima de guerra fria que virou verdade.

Infelizmente, a verdade se tornou a primeira vítima da guerra ideológica dos anos 60. Infelizmente, nossa educação parou no tempo em 1960. Basta dar uma olhada no tópico de Paulo Freire.
 

Makenshi

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@Goris sugiro entrar no site da UNESCO e procurar a coleção "História Geral da África", são 7 volumes, cada um com quase 1000 páginas, formato .PDF, qualidade impecável em todos os sentidos

Sugiro também fazer uma postagem sobre o Império do Mali/Songhay, pois teve influência na história de Roma e na de Portugal/Marrocos
 

Goris

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@Goris sugiro entrar no site da UNESCO e procurar a coleção "História Geral da África", são 7 volumes, cada um com quase 1000 páginas, formato .PDF, qualidade impecável em todos os sentidos

Sugiro também fazer uma postagem sobre o Império do Mali/Songhay, pois teve influência na história de Roma e na de Portugal/Marrocos
Valeu, vou conferir o site.

Cara, a África é imensa, tem história pra caramba e a gente sabe tão pouco. Uma vergonha.

Vergonha maior é a gente pensar que antes dos europeus lá era uma imensa selva com tribos da idade da pedra.
 

Baralho

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Mais ou menos, crer que a maioria do continente estava estagnado, tem sua razão em parte, pois antes, haviam regiões que haviam sido prósperas em desenvolvimento, como o antigo Egito, norte sudanês e Etiópia, que já tinham escrita, construções e identidades mais desenvolvidas.

Quem sabe se as cruzadas tivessem expulsado o islão do norte africano (o foco era retomar Jerusalem, claro), esses países citados acima estariam bem melhores.

Depois o declínio do continente africano se consolidou pelas rotas mercantilistas terem coincidido com a adoção de imprensa, bússola e armas de fogo (séc. XV e XVI) pelos países europeus.
 

Goris

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Mais ou menos, crer que a maioria do continente estava estagnado, tem sua razão em parte, pois antes, haviam regiões que haviam sido prósperas em desenvolvimento, como o antigo Egito, norte sudanês e Etiópia, que já tinham escrita, construções e identidades mais desenvolvidas.

Quem sabe se as cruzadas tivessem expulsado o islão do norte africano (o foco era retomar Jerusalem, claro), esses países citados acima estariam bem melhores.

Depois o declínio do continente africano se consolidou pelas rotas mercantilistas terem coincidido com a adoção de imprensa, bússola e armas de fogo (séc. XV e XVI) pelos países europeus.
Posso discordar um pouco, boa parte do subdesenvolvimento do continente vem do fim do tráfico de escravos.
Durante mil anos os africanos (sempre lembrando, descendo desses caras) passaram a depender cada vez mais da escravidão de seus irmãos. É tipo, você pode se desenvolver construindo, criando, extraindo, melhorando, modificando ou comercializando produtos. Quando os reinos africanos passaram a depender da escravidão (dinheiro fácil, era só ir para a terra vizinha em grupo, atacar e sequestrar pessoas, depois trocar essas pessoas sequestradas por ouro... Você precisa mesmo extrair ouro, derreter, forjar moedas se vc consegue quase que de graça? Em 100 anos, vc acaba por perder o conhecimento até de como extrair ouro... Aí, em 200 anos você nem sabe mais que tem ouro na sua terra - lembra, ele vem mais fácil do estrangeiro - e, finalmente, depois de 500 anos você nem se lembra de como viver sem esse ouro fácil.

Aí, acaba o tráfico de escravos. Você não tem mais ouro. Não sabe plantar, não sabe extrair, não sabe transformar... Só sabe sequestrar pessoas e vender. E não faz nem idéia do que seus antepassados de 500 anos antes faziam pra sobreviver.

Pronto. Decadência.

Estou exagerando MUITO, claro que não foi algo tão simples, mas a idéia básica é essa. A África se tornou tão dependente do comércio escravo que, quando ele acabou, quebrou o continente. Obviamente havia países com menos (ou quase nenhum) tráfico de escravos, mas muitas vezes ele dependia de vender para o país que tinha escravos. O outro país quebrou, o seu quebrou na esteira desse primeiro.

Temos tópicos e mais tópicos aqui mesmo na OS falando do caso da China, que guarda muitas semelhanças. A China era mais rica que vários países da Europa. O comércio da Inglaterra com a China era deficitário, os chineses não compravam os produtos baratos (mas de baixa qualidade) da Inglaterra, enquanto os produtos chineses (de qualidade da China, he he) tinham grande saída na Europa. Foi então que os ingleses passaram a vender ópio pra China. Ópio, até então, era um produto raro, usado para a saúde, mas quando inundaram o país de ópio barato, as pessoas passaram a usar como recreação, logo a China em peso se tornou viciada (tem relatos que 1 em cada 4 adultos chineses era viciado). Imagina o Brasil com 50 milhões de cracudos!

Você pode pensar que 1 em 4 é pouca coisa, ainda tem 3 em 4... Mas só pra vc ter idéia, o Brasil, com 200 milhões de habitantes não tem 50 milhões de trabalhadores formais. Imagina que para cada pessoa trabalhando, tivesse 1 pessoa incapaz de trabalhar, disposta a roubar e matar para poder suprir o vicio.

A economia do país entrou em frangalhos. Nos campos, alimentos apodreciam porque não havia pessoas para colher. No comércio, transporte, nas guildas de produção, tudo em caos. A poderosa China, que algumas pessoas suspeitam que chegou na América antes de Colombo, que tinha uma civilização antes de Roma, agora havia se tornado um caos. O exercito chines sofria do mesmo mal que o restante da populaçao.

A Inglaterra, até então inferior à China, aproveitou o momento de fraqueza e entrou em guerra com o país, conquistando largas parcelas de território. Logo, outros países europeus também estavam dividindo entre si a outrora poderosa China.

A África passou por um processo similar. A queda do comércio de escravos lançou as nações que dele dependiam no caos. Sem dinheiro para manter padrões de vida, se viraram uns contra os outros, perderam poderio, sem a população entender direito a situação, passaram a se rebelar contra os líderes ou contra os povos que antes os dominavam. E os europeus chegaram nesse momento, aproveitando o momento.

Claro que cada caso, de cada nação africana tornada colônia, é diferente. Mas acho que a situação básica vem daí.

Mas isso não é opinião de quem conhece a fundo a história do continente, ainda estou estudando. Mas parece ser uma hipótese coerente.
 

scharlie

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Trazendo videogames para o tópico, acho interessante lembrar o trabalho da franquia Civilization. No jogo mais recente da franquia, até agora existem 5 civilizações africanas:






Civilization IV tem a famosa música tema "Baba Yetu", no idioma suaíle.

 

Cafetão Chinês

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Telecomunicações não se resumem a conexão com a Internet. E você tem de fazer uma comparação honesta, com o restante da África e verificando qual era a estrutura do país antes do período de Anarquia.

Communications
https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Somalia_(1991–2006)#Communications
In the absence of government service provision and regulation, private businessmen stepped in to provide telecommunications and mailservices.[3] In 2007 parts of Somalia had some of the best voice telecommunications in Africa, with 10 or more competing companies ready to wire home or office and provide crystal-clear service, including international long distance, for about $10 a month." According to the CIA World Factbook, private telephone companies "offer service in most major cities" via wireless technology, charging "the lowest international rates on the continent",[1][27][28] Installation time for a land-line was just three days, while in the neighboring Kenya waiting lists were many years long.[15] On the other hand, just 0.7% of the population of Somalia had access to internet in 2006, a sixth of Kenya's internet penetration at the time,[29] and in 2007 mobile phone penetration rates in Somalia were amongst the lowest in Africa.[30]

The Economist argued the lack of telecommunication regulation in Somalia represented "a vivid illustration of the way in which governments…can often be more of a hindrance than a help" to private entrepreneurs.[31] Abdullahi Mohammed Hussein of Telecom Somalia stated that "the government post and telecoms company used to have a monopoly but after the regime was toppled, we were free to set up our own business", though he also commented that he would be "interested in paying taxes" if an incoming government improved the security situation.[32]


Mobile phonesSomalia calling
https://www.economist.com/business/2005/12/20/somalia-calling
Print edition | Business
Dec 20th 2005| bossaso and hargeisa
SOMALIA does not spring to mind as a good place to do business, but in telecoms at least it has something to teach the world. A call from a Somali mobile phone is generally cheaper and clearer than a call from anywhere else in Africa. The trick is the lack of regulation. Somalia has had no government since 1991. It was cut off for a while, but then private mobile companies moved in and found that the collapsed state provided a curious competitive advantage.
No government means no state telecoms company to worry about, no corrupt ministry officials to pay off (there is no ministry), and the freedom to choose the best-value equipment. Taxes, payable to a tentative local authority or strongman, are seldom more than 5%, security is another 5% (more in Mogadishu), and customs duties are next to nothing. There is no need to pay for licences, or to pay to put up masts. It is a vivid illustration of the way in which governments, for all their lip service to extending communications, can often be more of a hindrance than a help.

Telecoms: Somalia's success story
This article details how a regulatory vacuum and a strong entrepreneurial spirit paved the telecom market success in Somalia, which is the cheapest place in Africa to make international calls and the home of one of the largest money payment transfer companies. With the approval of a new constitution and the start of a new non-transitional government, confidence is high in Somalia.
https://www.hoganlovells.com/en/publications/telecoms-somalias-success-story
https://www.hoganlovells.com/~/media/hogan-lovells/pdf/africa-microsite/publication2012/africa_september_2012_newsletter_-_somalia_telecoms.pdf?la=en

http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/4020259.stm
Telecoms thriving in lawless Somalia
By Joseph Winter
BBC News, Mogadishu
Rising from the ruins of the Mogadishu skyline are signs of one of Somalia's few success stories in the anarchy of recent years.

Mobile phone masts in Mogadishu

Mobile phone masts are among the few new structures in Mogadishu

A host of mobile phone masts testifies to the telecommunications revolution which has taken place despite the absence of any functioning national government since 1991.
Three phone companies are engaged in fierce competition for both mobile and landline customers, while new internet cafes are being set up across the city and the entire country.
It takes just three days for a landline to be installed - compared with waiting-lists of many years in neighbouring Kenya, where there is a stable, democratic government.
And once installed, local calls are free for a monthly fee of just $10.
International calls cost 50 US cents a minute, while surfing the web is charged at 50 US cents an hour - "the cheapest rate in Africa" according to the manager of one internet cafe.
But how do you establish a phone company in a country where there is no government?
No monopoly
In some respects, it is actually easier.
There is no need to get a licence and there is no state-run monopoly which prevents new competitors being established.


Voices of Somali internet users

In pictures

And of course there is no-one to demand any taxes, which is one reason why prices are so low.
"The government post and telecoms company used to have a monopoly but after the regime was toppled, we were free to set up our own business," says Abdullahi Mohammed Hussein, products and services manager of Telcom Somalia, which was set up in 1994 when Mogadishu was still a war-zone.
"We saw a huge gap in the market, as all previous services had been destroyed. There was a massive demand."
The main airport and port were destroyed in the fighting but businessmen have built small airstrips and use natural harbours, so the phone companies are still able to import their equipment.
Despite the absence of law and order and a functional court system, bills are paid and contracts are enforced by relying on Somalia's traditional clan system, Mr Abdullahi says.
Mobile target
But in a country divided into hundreds of fiefdoms run by rival warlords, security is a major concern.
While Telcom Somalia has some 25,000 mobile customers - and a similar number have land lines - you very rarely see anyone walking along the streets of Mogadishu chatting on their phone, in case this attracts the attention of a hungry gunman.


We are very interested in paying taxes
Abdullahi Mohammed Hussein
Telcom Somalia

Life in Somalia: Have Your Say

The phone companies themselves say they are not targeted by the militiamen, even if thieves occasionally steal some of their wires.
Mahdi Mohammed Elmi has been managing the Wireless African Broadband Telecoms internet cafe in the heart of Mogadishu, surrounded by the bustling and chaotic Bakara market, for almost two years.
"I have never had a problem with security," he says and points out that they have just a single security guard at the front door.
Mr Abdullahi says the warlords realise that if they cause trouble for the phone companies, the phones will stop working again, which nobody wants.
"We need good relations with all the faction leaders. We don't interfere with them and they don't interfere with us. They want political power and we leave them alone," he says.
Selling goats on the net
While the three phone companies - Telcom, Nationlink and Hormuud - are engaged in bitter competition for phone customers, they have co-operated to set up the Global Internet Company to provide the internet infrastructure.


Somali traders say if business is better without a government

In pictures

Manager Abdulkadir Hassan Ahmed says that within 1.5km of central Mogadishu, customers - mostly internet cafes - can enjoy service at 150Mb/second through a Long Reach Ethernet.
Elsewhere, they can have a wireless connection at 11Mb/s.
He says his company is able to work anywhere in Somalia, whichever faction is in charge locally.
"Even small, remote villages are connected to the internet, as long as they have a phone line," he says.
The internet sector in Somalia has two main advantages over many of its Africa neighbours.
There is a huge diaspora around the world - between one and three million people, compared with an estimated seven million people in Somalia - who remain in contact with their friends and relatives back home.

E-mail in Somali

Somalis send e-mails in their own language

E-mail is the cheapest way of staying in touch and many Somalis can read and write their own language, instead of relying on English or French, which restricts internet users to a smaller number of well educated people.
Just two days after it was opened, the Orbit internet cafe in south Mogadishu's km5 was already pretty busy, with people checking their e-mail accounts, a livestock exporter sending out his invoices and two nurses doing medical research.
Video calling
And Somalia's telecoms revolution is far from over.
"We are planning to introduce 3G technology, including live video calling and mobile internet, next year," says Mr Abdullahi.
But despite their success, the telecoms companies say that like the population at large, they are desperate to have a government.

Telecoms engineer

Mogadishu's phone engineers are going to be kept busy

"We are very interested in paying taxes," says Mr Abdullahi - not a sentiment which often passes the lips of a high-flying businessman.
And Mr Abdulkadir at the Global Internet Company fully agrees.
"We badly need a government," he says. "Everything starts with security - the situation across the country.
"All the infrastructure of the country has collapsed - education, health and roads. We need to send our staff abroad for any training."
Another problem for companies engaged in the global telecoms business is paying their foreign partners.
At present, they use Somalia's traditional "Hawala" money transfer companies to get money to Dubai, the Middle East's trading and financial hub.
With a government would come a central bank, which would make such transactions far easier.
Taxes would mean higher prices but Mr Abdullahi says that Somalia's previous governments have kept taxes low and hopes this will continue under the regime due to start work in the coming months.
Somalia's telecoms companies are looking forward to an even brighter future with the support of a functioning government - as long as it does not impose punitive tax rates or state control in a sector which obviously needs very little help to thrive.


https://tradingeconomics.com/somalia/telecommunications-revenue-percent-gdp-wb-data.html
 

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Botswana: o tigre africano
por Scott Beaulier


Nos últimos 40 anos, Botswana tem sido o país da África subsaariana com mais rápido crescimento e um dos países que mais cresce no mundo. Antes um dos países mais pobres do mundo, hoje sua renda per capita agora se equipara com a de muitos países do Mediterrâneo. Assim como em muitos outros lugares, a crise financeira diminuiu o recente crescimento econômico de Botswana, e grandes pacotes de “estímulos” tem sido ostensivamente introduzidos para reverter esse quadro, mas, mesmo com a baixa performance econômica de Botswana em 2008 e 2009, o contraste do país com o resto da África subsaariana é marcante. Como o gráfico abaixo mostra, a África subsaariana (SSA) como um todo (com Botswana incluída) tem visto um crescimento modesto desde 1965, enquanto Botswana tem desfrutado de um crescimento 15 vezes maior do produto interno bruto real.
Enquanto muitos atribuem o sucesso do país à receita de diamantes e à sua população homogênea, o sucesso de Botswana na verdade tem sido resultado, sobretudo e principalmente, de sua liberdade econômica. Até 2009, Botswana era a nação africana subsaariana mais economicamente livre de acordo com o Fraser Institute; Maurício vem logo na frente de Botswana no relatório mais recente. A taxa marginal de impostos do país é uma das baixas do mundo; suas fronteiras são mais livres que as outras dos demais países africanos; e o governo tem uma longa tradição de respeitar a propriedade privada e o império da lei. Como o historiador Robert Guest resume as políticas pós-coloniais de Botswana, “desde a independência, Botswana tem sido governada de forma sensata, com cautela e de certa forma honestamente”.
A honestidade na política descrita por Guest tem ajudado Botswana a escapar da chamada “tragédia africana” da pobreza. Para padrões convencionais o país é uma nação com renda de classe média alta, e por toda a minha estadia em Botswana alguns anos atrás eu fiquei perplexo por como o país parecia ser “normal”. É seguro andar pelas ruas de madrugada, e as taxas de crimes violentos são bem baixas. A água potável é geralmente boa. Sua capital, Gaborone, tem um intenso comércio, e vários shoppings possuem muitos restaurantes de qualidade e lojas franqueadas similares àquelas encontradas nos países ocidentais. De acordo com os oficiais do governo, nenhum batsuana (o termo apropriado para os nascidos em Botswana) morreu pelas frequentes secas do país, e os níveis de educação básica e as redes de estradas públicas são bem superiores às dos países vizinhos. Como um turista bem observou, “esse lugar é realmente bem chato” (A que eu respondi, “sim, talvez seja uma ideia para o artigo: “Botswana: A Beleza de ser Chato”).
Em 1965, o país, um antigo protetorado da Grã-Bretanha, era uma nação recém independente, de terras desertas e criadores de gado. Seu futuro parecia estar condenado pelos experts, e muitos esperavam que Botswana permanecesse pobre e altamente dependente da África do Sul. Mesmo assim, como muitos dos “tigres asiáticos”, o sucesso de Botswana surge como um dos maiores crescimentos sustentáveis do século XX. O país tem uma média de 7% de crescimento anual na renda per capita desde sua independência.
Gráfico de crescimento Botswana


Botswana (em azul) compara do resto da África Subsariana

Harmonia Racial
As tentativas de explicar o desenvolvimento de Botswana como um resultado de sua cultura relativamente homogênea são falhas. Se a homogeneidade cultural e étnica tivessem um papel tão crucial na promoção de desenvolvimento, por que então Botswana era tão pobre na época da independência? Provavelmente não fez mal nenhum aos reformistas lidar com uma população homogênea durante o período pós-colonial, mas a cultura por si só não era o suficiente para garantir a explosão de crescimento de Botswana. Tornar-se livre da Grã-Bretanha e subsequentemente promover políticas econômicas sólidas foram os ingredientes adicionais e muito mais importantes para o sucesso do país.
A busca de Botswana por harmonia racial, entretanto, não a ajudou a evitar os tumultos que outros países subsaarianos enfrentaram.
Nos primeiros anos do desenvolvimento pós-colonial da Botswana, as lideranças se comportaram de forma bem diferente em relação a muitos outros líderes africanos. O primeiro presidente de Botswana, Seretse Khama, era um líder carismático que buscou a harmonia racial e deu boas-vindas aos conselhos dos expatriados britânicos. Em vez de seguir o caminho da maioria dos líderes africanos e adotar o marxismo, Khama e o seu partido, o Partido Democrata de Botswana (Botswana Democratic Party, BDP), escolheram sentar com os expatriados britânicos e aos interessados das minorias quando formularam políticas. Os encontros pequenos e informais organizados pelo BDP criaram políticas mais legítimas e serviram como uma união implícita entre o BDP e outros grupos de interesse importantes.
A tolerância e o cosmopolitismo de Khama e do BDP era muito mais que somente conversa. Quando discutiu-se questões sobre as fronteiras, por exemplo, o governo deu boas-vindas a milhares de refugiados que eram perseguidos por regimes racistas na Rodésia [N.R.: Atual Zimbabwe] e outros lugares. A posição oficial do governo era reconhecer a dignidade básica de todos os indivíduos e manter as fronteiras abertas.
A tolerância também moldou as políticas domésticas, à medida que o novo governo estava preocupado em incorporar instituições nativas tradicionais através do processo de reforma. Por exemplo, seu sistema kgotla, que antecedeu o colonialismo e incentivava a divergência na opinião pública e na unanimidade nas decisões, permanece como parte da Botswana moderna. Seu sistema tribal pré-colonial de lei e de resolução de disputas foi trago nas instituições modernas em certo grau através da Casa dos Governantes (House of Chiefs), que serve como um conselho de assessoria ao legislativo. Embora as reformas pós-coloniais não abraçassem completamente as instituições tradicionais dos períodos pré-coloniais e coloniais, passos eram dados para preservar partes valiosas da história e da cultura de Botswana. Em contraste, em muitas nações africanas subsaarianas, a chamada “modernização” significou o completo desmantelamento e eliminação de todas as questões tradicionais.
Controle de Gastos
À medida que o novo governo estava sendo formado no meio de 1960, poucos recursos estavam disponíveis para a máquina pública. Em vez de tributar as pessoas excessivamente, o governo manteve os impostos baixos e previsíveis. Os baixos impostos encorajaram a atividade empreendedora, diminuíram a evasão fiscal e a corrupção. Khama e o BDP podiam pedir empréstimos, mas tinham medo de acumular dívidas, então gastaram até mesmo em programas governamentais tradicionais, como defesa e educação, níveis mínimos. O governo não podia bancar uma força de defesa nacional inicialmente no processo de reforma, então o país simplesmente se virou praticamente dez anos sem ela.
O governo procurou conter gastos de longo prazo ao introduzir Planos de Desenvolvimento Nacional (National Development Plans, NDPs) de cinco anos para definir as prioridades dos gastos governamentais. Uma vez que concordaram nisso, eles apenas poderiam ser alterados com o apoio esmagador do parlamento. Além de estabelecer NDPs, o governo conteve gastos ao aplicar padrões rigorosos de custo-benefício dos gastos.
A abordagem geral de livre mercado ao desenvolvimento econômico adotada pela liderança de Botswana nos primeiros anos teve o efeito que muitos economistas pró-mercado previam: rápido crescimento e aumentos sérios da qualidade de vida para o batsuana médio. Esse desenvolvimento foi mais rápido durante os primeiros dez anos como uma nação independente – anos que antecederam a maioria das descobertas e extrações de diamante. Além disso, os diamantes não eram normalmente vistos como um boom para o desenvolvimento. Na maioria da literatura em Economia sobre a “maldição dos recursos naturais”, são ditas coisas como diamantes dificultam o desenvolvimento porque podem levar a instituições fracas e de rent-seeking. Como Fareed Zakaria salienta em seu popular livro, The Future of Freedom,
Por que riquezas naturais [como petróleo, diamantes e ouro] são uma maldição? Porque impedem o desenvolvimento de instituições políticas modernas, de leis e burocracias. Vamos assumir cinicamente que o objetivo de qualquer chefe governamental é dar a si mesmo maior riqueza e poder. Em um país sem recursos, para o estado ficar rico, a sociedade tem que ficar rica para que então o governo possa então tributar essa riqueza. Neste sentido, o sudeste asiático foi abençoado pois era bem pobre em recursos. Seus regimes tiveram que trabalhar duro para criar um governo efetivo porque essa era a única forma de enriquecer o país e então o estado. Os governos com tesouros em seu solo tem riqueza fácil; eles são estados “de fundo fiduciário”. Eles ficam inchados com receitas de vendas de minerais ou petróleo e não precisam enfrentar a tarefa cada vez mais difícil de criar uma estrutura de leis e instituições para gerar riqueza.
Então Botswana não tem crescimento por causa da riqueza de diamantes, e sim apesar dela.
Claro que Botswana encara alguns desafios sérios. Primeiro, o gasto governamental como porcentagem do PIB em Botswana está bem alto e tem crescido muito. A abordagem de “tirar o corpo fora” dos primeiros anos tem sido esquecida largamente e tem-se entrado na direção do governo inchado. O governo de Botswana, agora largo e inchado, financia uma grande defesa nacional, financia educação estatal, e tem cobertura de assistência médica estendida numa crise séria de HIV/AIDS. A escala de crescimento constante e a extensão do governo tem tornado Botswana um país menos economicamente livre nos últimos anos, e pode estar sufocando o futuro crescimento do país.
Segundo, as Cortes de Botswana e direitos de propriedade não tem sido livres de interferência. O império da lei, em particular, algumas vezes tem sido relaxado em casos envolvendo oficiais do governo. Grupos nativos, tais como o Kalahari Bushmen (também conhecidos como Sans, entre outros nomes) tem sido oprimidos constantemente pelo governo e por regras legais desfavoráveis. E a atitude do governo em relação a estrangeiros, particularmente os zimbabuanos, tem aumentado a xenofobia no país. Desvios contínuos do cosmopolitanismo de Khama nos últimos anos tornaram o futuro crescimento de Botswana incerto.
A principal razão de pegar o sucesso pós-colonial de Botswana como exemplo é o seguinte: Quando dada a chance, a liberdade econômica pode produzir crescimento benéfico de longo prazo em países africanos pobres. Muitos líderes na África subsaariana descartam boas histórias políticas como a contada aqui como “idéias e modelos ocidentais” impróprias para a África. A partir daí eles dizem, a história da África é única e diferente. As diferenças são significativas o suficiente para rotular-se “abordagens tradicionais”, tais como a liberdade econômica, como esforços inúteis. Enquanto há muito a dizer sobre não impor instituições externas nas pessoas, Botswana é um caso de africanos encontrando liberdade econômica por conta própria. Como resultado, o batsuana tem vivido altos padrões de vida.

https://anarcocapitalismo.com.br/2015/04/11/botswana-o-tigre-africano/
 

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Telecomunicações não se resumem a conexão com a Internet. E você tem de fazer uma comparação honesta, com o restante da África e verificando qual era a estrutura do país antes do período de Anarquia.

Communications
https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Somalia_(1991–2006)#Communications
In the absence of government service provision and regulation, private businessmen stepped in to provide telecommunications and mailservices.[3] In 2007 parts of Somalia had some of the best voice telecommunications in Africa, with 10 or more competing companies ready to wire home or office and provide crystal-clear service, including international long distance, for about $10 a month." According to the CIA World Factbook, private telephone companies "offer service in most major cities" via wireless technology, charging "the lowest international rates on the continent",[1][27][28] Installation time for a land-line was just three days, while in the neighboring Kenya waiting lists were many years long.[15] On the other hand, just 0.7% of the population of Somalia had access to internet in 2006, a sixth of Kenya's internet penetration at the time,[29] and in 2007 mobile phone penetration rates in Somalia were amongst the lowest in Africa.[30]

The Economist argued the lack of telecommunication regulation in Somalia represented "a vivid illustration of the way in which governments…can often be more of a hindrance than a help" to private entrepreneurs.[31] Abdullahi Mohammed Hussein of Telecom Somalia stated that "the government post and telecoms company used to have a monopoly but after the regime was toppled, we were free to set up our own business", though he also commented that he would be "interested in paying taxes" if an incoming government improved the security situation.[32]


Mobile phonesSomalia calling
https://www.economist.com/business/2005/12/20/somalia-calling
Print edition | Business
Dec 20th 2005| bossaso and hargeisa
SOMALIA does not spring to mind as a good place to do business, but in telecoms at least it has something to teach the world. A call from a Somali mobile phone is generally cheaper and clearer than a call from anywhere else in Africa. The trick is the lack of regulation. Somalia has had no government since 1991. It was cut off for a while, but then private mobile companies moved in and found that the collapsed state provided a curious competitive advantage.
No government means no state telecoms company to worry about, no corrupt ministry officials to pay off (there is no ministry), and the freedom to choose the best-value equipment. Taxes, payable to a tentative local authority or strongman, are seldom more than 5%, security is another 5% (more in Mogadishu), and customs duties are next to nothing. There is no need to pay for licences, or to pay to put up masts. It is a vivid illustration of the way in which governments, for all their lip service to extending communications, can often be more of a hindrance than a help.

Telecoms: Somalia's success story
This article details how a regulatory vacuum and a strong entrepreneurial spirit paved the telecom market success in Somalia, which is the cheapest place in Africa to make international calls and the home of one of the largest money payment transfer companies. With the approval of a new constitution and the start of a new non-transitional government, confidence is high in Somalia.
https://www.hoganlovells.com/en/publications/telecoms-somalias-success-story
https://www.hoganlovells.com/~/media/hogan-lovells/pdf/africa-microsite/publication2012/africa_september_2012_newsletter_-_somalia_telecoms.pdf?la=en

http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/4020259.stm
Telecoms thriving in lawless Somalia
By Joseph Winter
BBC News, Mogadishu
Rising from the ruins of the Mogadishu skyline are signs of one of Somalia's few success stories in the anarchy of recent years.

Mobile phone masts in Mogadishu

Mobile phone masts are among the few new structures in Mogadishu

A host of mobile phone masts testifies to the telecommunications revolution which has taken place despite the absence of any functioning national government since 1991.
Three phone companies are engaged in fierce competition for both mobile and landline customers, while new internet cafes are being set up across the city and the entire country.
It takes just three days for a landline to be installed - compared with waiting-lists of many years in neighbouring Kenya, where there is a stable, democratic government.
And once installed, local calls are free for a monthly fee of just $10.
International calls cost 50 US cents a minute, while surfing the web is charged at 50 US cents an hour - "the cheapest rate in Africa" according to the manager of one internet cafe.
But how do you establish a phone company in a country where there is no government?
No monopoly
In some respects, it is actually easier.
There is no need to get a licence and there is no state-run monopoly which prevents new competitors being established.


Voices of Somali internet users

In pictures

And of course there is no-one to demand any taxes, which is one reason why prices are so low.
"The government post and telecoms company used to have a monopoly but after the regime was toppled, we were free to set up our own business," says Abdullahi Mohammed Hussein, products and services manager of Telcom Somalia, which was set up in 1994 when Mogadishu was still a war-zone.
"We saw a huge gap in the market, as all previous services had been destroyed. There was a massive demand."
The main airport and port were destroyed in the fighting but businessmen have built small airstrips and use natural harbours, so the phone companies are still able to import their equipment.
Despite the absence of law and order and a functional court system, bills are paid and contracts are enforced by relying on Somalia's traditional clan system, Mr Abdullahi says.
Mobile target
But in a country divided into hundreds of fiefdoms run by rival warlords, security is a major concern.
While Telcom Somalia has some 25,000 mobile customers - and a similar number have land lines - you very rarely see anyone walking along the streets of Mogadishu chatting on their phone, in case this attracts the attention of a hungry gunman.


We are very interested in paying taxes
Abdullahi Mohammed Hussein
Telcom Somalia

Life in Somalia: Have Your Say

The phone companies themselves say they are not targeted by the militiamen, even if thieves occasionally steal some of their wires.
Mahdi Mohammed Elmi has been managing the Wireless African Broadband Telecoms internet cafe in the heart of Mogadishu, surrounded by the bustling and chaotic Bakara market, for almost two years.
"I have never had a problem with security," he says and points out that they have just a single security guard at the front door.
Mr Abdullahi says the warlords realise that if they cause trouble for the phone companies, the phones will stop working again, which nobody wants.
"We need good relations with all the faction leaders. We don't interfere with them and they don't interfere with us. They want political power and we leave them alone," he says.
Selling goats on the net
While the three phone companies - Telcom, Nationlink and Hormuud - are engaged in bitter competition for phone customers, they have co-operated to set up the Global Internet Company to provide the internet infrastructure.


Somali traders say if business is better without a government

In pictures

Manager Abdulkadir Hassan Ahmed says that within 1.5km of central Mogadishu, customers - mostly internet cafes - can enjoy service at 150Mb/second through a Long Reach Ethernet.
Elsewhere, they can have a wireless connection at 11Mb/s.
He says his company is able to work anywhere in Somalia, whichever faction is in charge locally.
"Even small, remote villages are connected to the internet, as long as they have a phone line," he says.
The internet sector in Somalia has two main advantages over many of its Africa neighbours.
There is a huge diaspora around the world - between one and three million people, compared with an estimated seven million people in Somalia - who remain in contact with their friends and relatives back home.

E-mail in Somali

Somalis send e-mails in their own language

E-mail is the cheapest way of staying in touch and many Somalis can read and write their own language, instead of relying on English or French, which restricts internet users to a smaller number of well educated people.
Just two days after it was opened, the Orbit internet cafe in south Mogadishu's km5 was already pretty busy, with people checking their e-mail accounts, a livestock exporter sending out his invoices and two nurses doing medical research.
Video calling
And Somalia's telecoms revolution is far from over.
"We are planning to introduce 3G technology, including live video calling and mobile internet, next year," says Mr Abdullahi.
But despite their success, the telecoms companies say that like the population at large, they are desperate to have a government.

Telecoms engineer

Mogadishu's phone engineers are going to be kept busy

"We are very interested in paying taxes," says Mr Abdullahi - not a sentiment which often passes the lips of a high-flying businessman.
And Mr Abdulkadir at the Global Internet Company fully agrees.
"We badly need a government," he says. "Everything starts with security - the situation across the country.
"All the infrastructure of the country has collapsed - education, health and roads. We need to send our staff abroad for any training."
Another problem for companies engaged in the global telecoms business is paying their foreign partners.
At present, they use Somalia's traditional "Hawala" money transfer companies to get money to Dubai, the Middle East's trading and financial hub.
With a government would come a central bank, which would make such transactions far easier.
Taxes would mean higher prices but Mr Abdullahi says that Somalia's previous governments have kept taxes low and hopes this will continue under the regime due to start work in the coming months.
Somalia's telecoms companies are looking forward to an even brighter future with the support of a functioning government - as long as it does not impose punitive tax rates or state control in a sector which obviously needs very little help to thrive.


https://tradingeconomics.com/somalia/telecommunications-revenue-percent-gdp-wb-data.html
A experiência é interessante mas a baixa capilaridade com toda certeza é reflexo da ausência de um apelo institucional capaz de unificar e estabilizar a situação do país, o sucesso é explicado realmente pela ausência de burocracias burras e corrupção, mas algumas reportagens apontaram que um governo eficiente seria muito bem vindo para a maioria deles, não esta anarquia apresentada.
 

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Botswana: o tigre africano
por Scott Beaulier


Nos últimos 40 anos, Botswana tem sido o país da África subsaariana com mais rápido crescimento e um dos países que mais cresce no mundo. Antes um dos países mais pobres do mundo, hoje sua renda per capita agora se equipara com a de muitos países do Mediterrâneo. Assim como em muitos outros lugares, a crise financeira diminuiu o recente crescimento econômico de Botswana, e grandes pacotes de “estímulos” tem sido ostensivamente introduzidos para reverter esse quadro, mas, mesmo com a baixa performance econômica de Botswana em 2008 e 2009, o contraste do país com o resto da África subsaariana é marcante. Como o gráfico abaixo mostra, a África subsaariana (SSA) como um todo (com Botswana incluída) tem visto um crescimento modesto desde 1965, enquanto Botswana tem desfrutado de um crescimento 15 vezes maior do produto interno bruto real.
Enquanto muitos atribuem o sucesso do país à receita de diamantes e à sua população homogênea, o sucesso de Botswana na verdade tem sido resultado, sobretudo e principalmente, de sua liberdade econômica. Até 2009, Botswana era a nação africana subsaariana mais economicamente livre de acordo com o Fraser Institute; Maurício vem logo na frente de Botswana no relatório mais recente. A taxa marginal de impostos do país é uma das baixas do mundo; suas fronteiras são mais livres que as outras dos demais países africanos; e o governo tem uma longa tradição de respeitar a propriedade privada e o império da lei. Como o historiador Robert Guest resume as políticas pós-coloniais de Botswana, “desde a independência, Botswana tem sido governada de forma sensata, com cautela e de certa forma honestamente”.
A honestidade na política descrita por Guest tem ajudado Botswana a escapar da chamada “tragédia africana” da pobreza. Para padrões convencionais o país é uma nação com renda de classe média alta, e por toda a minha estadia em Botswana alguns anos atrás eu fiquei perplexo por como o país parecia ser “normal”. É seguro andar pelas ruas de madrugada, e as taxas de crimes violentos são bem baixas. A água potável é geralmente boa. Sua capital, Gaborone, tem um intenso comércio, e vários shoppings possuem muitos restaurantes de qualidade e lojas franqueadas similares àquelas encontradas nos países ocidentais. De acordo com os oficiais do governo, nenhum batsuana (o termo apropriado para os nascidos em Botswana) morreu pelas frequentes secas do país, e os níveis de educação básica e as redes de estradas públicas são bem superiores às dos países vizinhos. Como um turista bem observou, “esse lugar é realmente bem chato” (A que eu respondi, “sim, talvez seja uma ideia para o artigo: “Botswana: A Beleza de ser Chato”).
Em 1965, o país, um antigo protetorado da Grã-Bretanha, era uma nação recém independente, de terras desertas e criadores de gado. Seu futuro parecia estar condenado pelos experts, e muitos esperavam que Botswana permanecesse pobre e altamente dependente da África do Sul. Mesmo assim, como muitos dos “tigres asiáticos”, o sucesso de Botswana surge como um dos maiores crescimentos sustentáveis do século XX. O país tem uma média de 7% de crescimento anual na renda per capita desde sua independência.
Gráfico de crescimento Botswana


Botswana (em azul) compara do resto da África Subsariana

Harmonia Racial
As tentativas de explicar o desenvolvimento de Botswana como um resultado de sua cultura relativamente homogênea são falhas. Se a homogeneidade cultural e étnica tivessem um papel tão crucial na promoção de desenvolvimento, por que então Botswana era tão pobre na época da independência? Provavelmente não fez mal nenhum aos reformistas lidar com uma população homogênea durante o período pós-colonial, mas a cultura por si só não era o suficiente para garantir a explosão de crescimento de Botswana. Tornar-se livre da Grã-Bretanha e subsequentemente promover políticas econômicas sólidas foram os ingredientes adicionais e muito mais importantes para o sucesso do país.
A busca de Botswana por harmonia racial, entretanto, não a ajudou a evitar os tumultos que outros países subsaarianos enfrentaram.
Nos primeiros anos do desenvolvimento pós-colonial da Botswana, as lideranças se comportaram de forma bem diferente em relação a muitos outros líderes africanos. O primeiro presidente de Botswana, Seretse Khama, era um líder carismático que buscou a harmonia racial e deu boas-vindas aos conselhos dos expatriados britânicos. Em vez de seguir o caminho da maioria dos líderes africanos e adotar o marxismo, Khama e o seu partido, o Partido Democrata de Botswana (Botswana Democratic Party, BDP), escolheram sentar com os expatriados britânicos e aos interessados das minorias quando formularam políticas. Os encontros pequenos e informais organizados pelo BDP criaram políticas mais legítimas e serviram como uma união implícita entre o BDP e outros grupos de interesse importantes.
A tolerância e o cosmopolitismo de Khama e do BDP era muito mais que somente conversa. Quando discutiu-se questões sobre as fronteiras, por exemplo, o governo deu boas-vindas a milhares de refugiados que eram perseguidos por regimes racistas na Rodésia [N.R.: Atual Zimbabwe] e outros lugares. A posição oficial do governo era reconhecer a dignidade básica de todos os indivíduos e manter as fronteiras abertas.
A tolerância também moldou as políticas domésticas, à medida que o novo governo estava preocupado em incorporar instituições nativas tradicionais através do processo de reforma. Por exemplo, seu sistema kgotla, que antecedeu o colonialismo e incentivava a divergência na opinião pública e na unanimidade nas decisões, permanece como parte da Botswana moderna. Seu sistema tribal pré-colonial de lei e de resolução de disputas foi trago nas instituições modernas em certo grau através da Casa dos Governantes (House of Chiefs), que serve como um conselho de assessoria ao legislativo. Embora as reformas pós-coloniais não abraçassem completamente as instituições tradicionais dos períodos pré-coloniais e coloniais, passos eram dados para preservar partes valiosas da história e da cultura de Botswana. Em contraste, em muitas nações africanas subsaarianas, a chamada “modernização” significou o completo desmantelamento e eliminação de todas as questões tradicionais.
Controle de Gastos
À medida que o novo governo estava sendo formado no meio de 1960, poucos recursos estavam disponíveis para a máquina pública. Em vez de tributar as pessoas excessivamente, o governo manteve os impostos baixos e previsíveis. Os baixos impostos encorajaram a atividade empreendedora, diminuíram a evasão fiscal e a corrupção. Khama e o BDP podiam pedir empréstimos, mas tinham medo de acumular dívidas, então gastaram até mesmo em programas governamentais tradicionais, como defesa e educação, níveis mínimos. O governo não podia bancar uma força de defesa nacional inicialmente no processo de reforma, então o país simplesmente se virou praticamente dez anos sem ela.
O governo procurou conter gastos de longo prazo ao introduzir Planos de Desenvolvimento Nacional (National Development Plans, NDPs) de cinco anos para definir as prioridades dos gastos governamentais. Uma vez que concordaram nisso, eles apenas poderiam ser alterados com o apoio esmagador do parlamento. Além de estabelecer NDPs, o governo conteve gastos ao aplicar padrões rigorosos de custo-benefício dos gastos.
A abordagem geral de livre mercado ao desenvolvimento econômico adotada pela liderança de Botswana nos primeiros anos teve o efeito que muitos economistas pró-mercado previam: rápido crescimento e aumentos sérios da qualidade de vida para o batsuana médio. Esse desenvolvimento foi mais rápido durante os primeiros dez anos como uma nação independente – anos que antecederam a maioria das descobertas e extrações de diamante. Além disso, os diamantes não eram normalmente vistos como um boom para o desenvolvimento. Na maioria da literatura em Economia sobre a “maldição dos recursos naturais”, são ditas coisas como diamantes dificultam o desenvolvimento porque podem levar a instituições fracas e de rent-seeking. Como Fareed Zakaria salienta em seu popular livro, The Future of Freedom,

Então Botswana não tem crescimento por causa da riqueza de diamantes, e sim apesar dela.
Claro que Botswana encara alguns desafios sérios. Primeiro, o gasto governamental como porcentagem do PIB em Botswana está bem alto e tem crescido muito. A abordagem de “tirar o corpo fora” dos primeiros anos tem sido esquecida largamente e tem-se entrado na direção do governo inchado. O governo de Botswana, agora largo e inchado, financia uma grande defesa nacional, financia educação estatal, e tem cobertura de assistência médica estendida numa crise séria de HIV/AIDS. A escala de crescimento constante e a extensão do governo tem tornado Botswana um país menos economicamente livre nos últimos anos, e pode estar sufocando o futuro crescimento do país.
Segundo, as Cortes de Botswana e direitos de propriedade não tem sido livres de interferência. O império da lei, em particular, algumas vezes tem sido relaxado em casos envolvendo oficiais do governo. Grupos nativos, tais como o Kalahari Bushmen (também conhecidos como Sans, entre outros nomes) tem sido oprimidos constantemente pelo governo e por regras legais desfavoráveis. E a atitude do governo em relação a estrangeiros, particularmente os zimbabuanos, tem aumentado a xenofobia no país. Desvios contínuos do cosmopolitanismo de Khama nos últimos anos tornaram o futuro crescimento de Botswana incerto.
A principal razão de pegar o sucesso pós-colonial de Botswana como exemplo é o seguinte: Quando dada a chance, a liberdade econômica pode produzir crescimento benéfico de longo prazo em países africanos pobres. Muitos líderes na África subsaariana descartam boas histórias políticas como a contada aqui como “idéias e modelos ocidentais” impróprias para a África. A partir daí eles dizem, a história da África é única e diferente. As diferenças são significativas o suficiente para rotular-se “abordagens tradicionais”, tais como a liberdade econômica, como esforços inúteis. Enquanto há muito a dizer sobre não impor instituições externas nas pessoas, Botswana é um caso de africanos encontrando liberdade econômica por conta própria. Como resultado, o batsuana tem vivido altos padrões de vida.

https://anarcocapitalismo.com.br/2015/04/11/botswana-o-tigre-africano/
Falta reduzir a dependência extrema do país ao diamante, o estado detêm 50 porcento da empresa responsável pela extração do mesmo, e grande parte do orçamento provêm dele, de resto é uma experiência fantástica, espero que eles continuem neste caminho de prosperidade, diversificação e redução do estado.
 

Cafetão Chinês

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A experiência é interessante mas a baixa capilaridade com toda certeza é reflexo da ausência de um apelo institucional capaz de unificar e estabilizar a situação do país, o sucesso é explicado realmente pela ausência de burocracias burras e corrupção, mas algumas reportagens apontaram que um governo eficiente seria muito bem vindo para a maioria deles, não esta anarquia apresentada.
Não é por isso não. E você está insistindo nessa afirmação sem apresentar nenhum número que a embase (ao menos agora reconhece que houve evolução durante o período de Anarquia).

Os números mostram que houve clara evolução, principalmente devido o país ter saído de uma situação muito mais baixa na qualidade das telecomunicações do que os outros países africanos. E agora estar em melhores condições do que muitos deles.
Dê uma lida nesse relatório: https://www.hoganlovells.com/~/media/hogan-lovells/pdf/africa-microsite/publication2012/africa_september_2012_newsletter_-_somalia_telecoms.pdf?la=en

O fato de ainda serem pobres e carecerem de uma infraestrutura melhor, não tem absolutamente nada a ver com um "governo eficiente". Poupança leva tempo para ser acumulada. E o capitalismo depende de poupança. Só a longo prazo é possível acumular os recursos necessários para finalmente gerar riqueza.
Os anos de estatismo, socialismo e ditadura empobreceram completamente aquele pais e cobraram seu preço.

Sobre o tal "governo eficiente". A Somália já possui um governo instaurado pela ONU desde 2003.
Falta reduzir a dependência extrema do país ao diamante, o estado detêm 50 porcento da empresa responsável pela extração do mesmo, e grande parte do orçamento provêm dele, de resto é uma experiência fantástica, espero que eles continuem neste caminho de prosperidade, diversificação e redução do estado.
Botswana não tem crescimento apenas por causa da riqueza de diamantes, e sim apesar dela. Devido a liberdade econômica.
Enquanto muitos atribuem o sucesso do país à receita de diamantes e à sua população homogênea, o sucesso de Botswana na verdade tem sido resultado, sobretudo e principalmente, de sua liberdade econômica. Até 2009, Botswana era a nação africana subsaariana mais economicamente livre de acordo com o Fraser Institute; Maurício vem logo na frente de Botswana no relatório mais recente. A taxa marginal de impostos do país é uma das baixas do mundo; suas fronteiras são mais livres que as outras dos demais países africanos; e o governo tem uma longa tradição de respeitar a propriedade privada e o império da lei. Como o historiador Robert Guest resume as políticas pós-coloniais de Botswana, “desde a independência, Botswana tem sido governada de forma sensata, com cautela e de certa forma honestamente”.
E um país que exporta riquezas naturais não é necessariamente ruim, o que importa é o valor agregado. Chile, Nova Zelândia e Austrália são países que enriqueceram basicamente vendendo recursos primários: como Cobre, Ovelhas e Agricultura. E enriqueceram com isso pois a liberdade econômica permitiu com que agregassem valor e eficiência a esses produtos primários.


Como a Nova Zelândia e o Chile transformam vacas, ovelhas, uvas e cobre em automóveis de qualidade
Esta “mágica” só é possível, e funciona perfeitamente, quando há liberdade

Não existe nenhuma fábrica ou montadora de automóveis na Nova Zelândia. E nem no Chile.
Há muito tempo sua população deixou claro, por meio de suas preferências de consumo, que não queria que o país consumisse recursos escassos — mão-de-obra e matéria-prima — fabricando estes bens de consumo.
Sua população prefere que sua mão-de-obra e seus recursos escassos sejam destinados à produção daqueles bens e serviços em que eles realmente são bons e competentes.
Em termos técnicos, isso se chama divisão do trabalho (cada um se especializa naquilo em que é bom) e vantagem comparativa (faço aquilo em que sou melhor que os outros).
Mas agora vem o fato realmente curioso: mesmo sem ter nenhum fabricante de automóveis em seu território, há 774 carros para cada 1.000 habitantes na Nova Zelândia. Isso significa que sua população é a quarta mais motorizada do mundo (à frente, inclusive, da Itália e muito à frente da Alemanha e da Suíça).
Já no Chile, os números são mais modestos. Há 230 veículos por 1.000 habitantes, o que coloca o país na 65ª posição. Ainda assim, o país está tecnicamente empatado com o Brasil, que está na 62ª posição e possui nada menos que 10 montadoras.
Qual o segredo?
O milagre da transubstanciação
Basicamente, se quiserem ter carros, Nova Zelândia e Chile têm duas opções: ou eles montam fábricas voltadas exclusivamente à produção de automóveis ou eles simplesmente extraem do solo todos os carros que querem, já montados e prontos para uso.
Ambos os países, inteligentemente, optaram pela segunda alternativa.
Eis como um carro é fabricado na Nova Zelândia: primeiro, um pecuarista cria vacas e ovelhas, que são a matéria-prima da qual os carros são feitos. Após alguns meses, as vacas e as ovelhas crescem. Ato contínuo, ele extrai leite das vacas, corta sua carne e tosa o pêlo das ovelhas. O leite se transforma em vários derivados. A vaca se transforma em carne. O pêlo da ovelha se transforma em lã. Esses três produtos são embarcados em navios. Os navios vão para a Ásia, para as Américas e para a Europa. Após alguns meses, os navios reaparecem com Toyotas, Ford Rangers, Mitsubishis, Nissans e Mazdasdentro deles.
Eis como um carro é fabricado no Chile: primeiro, mineiros escavam minas de cobre e agricultores cultivam parreiras. Cobre e uva são as matérias-primas das quais os automóveis são feitos. Após algum tempo, as uvas crescem e o cobre é extraído do solo. O cobre e as uvas são embarcados em navios. Os navios vão para a Ásia, para a América do Norte e para a Europa. Após alguns meses, os navios voltam com Chevrolets, Mazdas, Fords, Kias, Toyotas, Nissans e Hyundais dentro deles.
Assim funciona a mágica produção de carros nestes dois países. Eles exportam produtos e, com o dinheiro dessa exportação, importam automóveis.
Eis a principal pauta de exportação da Nova Zelândia: laticínios, ovos, mel, carne, lã, madeira, frutas, nozes, bebidas e peixes.
Eis a principal pauta de exportações do Chile: cobre, uvas, peixes, polpa de madeira e fertilizantes.
Em troca desses bens simples, os neozelandeses e chilenos recebem carros, caminhões, máquinas, equipamentos, petróleo, aviões, eletroeletrônicos, têxteis, plásticos, produtos químicos, aços e borrachas.
Eu diria que é um ótimo negócio. E extremamente conveniente.
Tecnologia pura
O comércio internacional nada mais é do que uma forma de tecnologia mágica, que converte bens que você produz em bens que você não produz. Se você se especializa na produção de um bem, e adquire uma vantagem comparativa na produção deste bem, você conseguirá obter qualquer outro bem que deseja.
Essa é a mágica da especialização e da divisão do trabalho. Por poderem comprar carros (e praticamente quaisquer outros produtos) baratos do exterior, os chilenos e neozelandeses se concentram naquilo que sabem fazer melhor, e deixam para os outros a árdua tarefa de montar seus veículos. Eles já perceberam que é muito mais negócio simplesmente importar carros baratos do que direcionar recursos escassos para tentar fazê-los por conta própria, algo em que eles não são bons. Eles sabem que isso não seria inteligente. Eles entendem a lei das vantagens comparativas.
Em vez de sofrerem de delírios megalomaníacos, acreditando que devem tentar produzir de tudo, os chilenos e os neozelandeses simplesmente entenderam que há produtos que podem ser mais bem produzidos no exterior. Um destes são os automóveis.
O fato de que há países chamados Japão, Coreia e Estados Unidos, com pessoas e fábricas, é totalmente irrelevante para o bem-estar de neozelandeses e chilenos (e também de irlandeses, suíços e islandeses, cujos países também não possuem montadoras). Em termos práticos, tais locais podem ser vistos como gigantescas máquinas misteriosas que convertem laticínios, lãs, uvas e cobres em uma variedade de produtos que desejam.
Atrapalhando tudo
Agora, imagine que os governos destes dois países resolvessem "estimular a indústria nacional" tributando pesadamente os carros importados com o objetivo de criar uma "grande e forte" indústria automobilística local.
Quais seriam as consequências?
Em primeiro lugar, há o fato óbvio de que, se Chile e Nova Zelândia passarem a tributar pesadamente as importações de automóveis do Japão, da Coréia e dos EUA, estes países iriam retaliar e iriam também tributar pesadamente as importações de produtos chilenos e neozelandeses.
Consequentemente, não apenas toda a população estaria em pior situação (todos os produtos agora estariam bem mais caros), como ainda os próprios exportadores da Nova Zelândia e do Chile seriam prejudicados, pois agora seu mercado consumidor estaria reduzido.
Mas e se não houvesse retaliações? Ainda assim, as vítimas seriam as mesmas.
Para começar, a população da Nova Zelândia e do Chile agora estaria privada de obter carros baratos. Isso seria um ataque direto à sua mais essencial liberdade, que é a liberdade de escolha. Seus salários agora valeriam menos. As pessoas trabalhariam, mas não teriam o direito de usufruir seu salário em sua plenitude, pois o governo agora encareceu artificialmente a aquisição de um bem.
Mas tudo piora. E agora vem a parte principal. Construir indústrias automotivas e fabricar carros exigirá que vários recursos escassos sejam desviados para esses empreendimentos. Mais minério de ferro, mais aço, mais borracha, mais alumínio, mais plásticos, mais maquinários, mais eletricidade etc. serão demandados pelas montadoras. Consequentemente, haverá menos desses recursos disponíveis para o resto da economia, principalmente para os produtores exportadores. Mais aço, alumínio, borrachas, peças e maquinários demandados pela indústria automotiva significam menos desses itens disponíveis para os maquinários dos mineiros, as colheitadeiras dos agricultores, os barcos dos pescadores, e os tratores e caminhões dos madeireiros.
Os preços de todos os recursos subirão, inclusive a eletricidade. Consequentemente, os custos de produção também subirão. Ato contínuo, os próprios exportadores terão de subir seus preços, o que poderá afetar suas vendas. Com menos vendas ao exterior, a própria capacidade de importação do país diminui, o que pode afetar diretamente o padrão de vida de toda a população.
E tudo isso será ainda mais acentuado pelo fato de que, por não terem expertise nessa área e por operarem sob uma reserva de mercado, as indústrias automotivas destes países não terão motivos para serem eficientes. Isso elevará ainda mais o desperdício de recursos escassos, intensificando a alta de custos e dificultando ainda mais a vida dos outros produtores e exportadores.
Qual foi o ganho líquido para a população deste país? Exato, nenhum.
Qualquer política governamental criada para favorecer um setor é uma política que irá inevitavelmente prejudicar vários outros setores. No mercado, nenhuma distorção criada artificialmente passa impune.
No exemplo acima, uma tributação sobre (ou mesmo a proibição de) carros importados representou uma tributação sobre (ou mesmo a proibição de) vários outros produtos exportados. Se o governo decide proteger um setor, inevitavelmente ele prejudicará outro setor.
Conclusão
Decidir se um país deve ou não produzir carros por conta própria — ou qualquer outro produto — é algo que tem de ser determinado exclusivamente pelo sistema de preços livres. Este é o único sistema que pode determinar se um empreendimento é sensato ou não.
Havendo um sistema de preços livres, ele irá selecionar uma alocação de recursos que minimize os custos totais de produção.
Em alguns países — como Nova Zelândia, Irlanda, Suíça, Islândia e Chile —, não é racional direcionar recursos escassos para a produção de automóveis. É mais sensato trazê-los de fora. Em outros países, como EUA, Canadá e Alemanha, produzir dentro e também importar é o arranjo mais sensato, pois a demanda é grande.
Já quando um governo decide dificultar as importações para favorecer uma indústria já estabelecida — como ocorre com a indústria automotiva no Brasil —, ele não apenas transfere renda de toda a população para esta indústria (vide que os preços dos carros no Brasil nunca caem, mesmo em meio a uma brutal recessão e a uma acentuada queda na demanda), como ainda aumenta o custo do cidadão comum adquirir este produto. Toda essa perda de eficiência ocorre sem que haja nenhum ganho.
Como consequência, todo o país está mais pobre, e muito aquém do seu padrão de vida potencial.
Quer ter um padrão de vida alto, com acesso pleno e barato aos melhores produtos do mundo? Defenda o livre comércio.
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2617
 
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